A imagem é universal: um turista sorrindo, com as mãos estendidas, fingindo segurar a Torre de Pisa para que ela não caia. É o ritual obrigatório, a foto clássica. Mas por trás dessa cena icônica, esconde-se uma história muito mais profunda e surpreendente, que se estende por dez séculos. A Praça dos Milagres não é apenas um campanário com um problema estrutural; é um museu a céu aberto, um complexo arquitetônico onde cada pedra narra um épico de ambição, fé e engenhosidade.

A beleza luminosa e a história complexa deste lugar foram perfeitamente capturadas em uma inscrição na tumba de seu arquiteto-chefe, Buscheto, que descreve o complexo como “una nevicata di marmo” — uma nevasca de mármore. Contudo, o segredo mais grandioso não está em nenhum monumento isolado, mas no projeto que une todos eles. Os quatro edifícios mapeiam a jornada da vida de um fiel: o nascimento para a fé (o Batistério), a vida de oração e comunidade (a Catedral), a passagem inexorável do tempo (o Campanário/Torre) e, finalmente, a morte e a promessa de ressurreição (o Campo Santo). Este é o arco da existência humana, eternizado em pedra, e é dentro desta narrativa que todos os outros segredos ganham seu verdadeiro significado.

1. O Nome “Campo dos Milagres” Não é Medieval — É de um Romance de 1910.

Embora o nome “Campo dos Milagres” soe como algo saído diretamente da Idade Média, sua origem é surpreendentemente moderna. Durante séculos, o local foi oficialmente conhecido pelo nome mais funcional de “Piazza del Duomo” (Praça da Catedral). A praça que por séculos fora conhecida por sua função teve sua identidade poética forjada não por um decreto medieval, mas pela pena de um dos maiores estetas da Itália.

Foi o escritor e poeta Gabriele D’Annunzio, que nutria um profundo fascínio por Pisa, chamando-a de “cidade dos silêncios”, quem rebatizou o local para sempre. Em seu romance de 1910, Forse che sì forse che no (“Talvez que sim, talvez que não”), ele cunhou a expressão que redefiniria a praça. Em uma passagem, ele descreve uma garça (Ardea) sobrevoando a cidade:

“L’Ardea roteò l’Ardea l’aereo nel cielo di Cristo sopra il campo dei miracoli.” (A Ardea girou, a Ardea, o avião no céu de Cristo sobre o campo dos milagres.)

Os “milagres” aos quais D’Annunzio se referia eram os próprios monumentos, cuja beleza o havia cativado. Com uma única frase, a percepção de um dos locais históricos mais famosos do mundo foi permanentemente alterada pela imaginação de um romancista, provando como a arte pode renomear a história.

2. A Disposição “Estranha” dos Edifícios é na Verdade um Relógio Cósmico.

À primeira vista, a disposição dos edifícios na praça pode parecer estranha. A catedral e o batistério estão alinhados, mas a torre está notavelmente deslocada. A resposta não está na conveniência, mas na astrologia. Pisa foi fundada simbolicamente em 25 de março, dia que marcava o início do ano pisano e que cai sob o signo de Áries, cujo carneiro se tornou um símbolo da cidade.

Acredita-se que a praça foi projetada para funcionar como uma ampulheta cósmica. A teoria sustenta que um raio de sol preciso que, ao meio-dia do dia 25 de março, entrava por uma pequena abertura na cúpula do Batistério e da Catedral, iluminava pontos exatos em seu interior. A localização aparentemente aleatória dos monumentos era, na verdade, uma tentativa deliberada de mapear conceitos astronômicos no terreno, conectando a vida cívica e religiosa da cidade aos ciclos do cosmos.

3. A Torre Pende Porque o Lugar Perfeito para os Astros era o Pior para a Engenharia.

A mesma decisão que alinhou a torre com os céus foi a sua ruína do ponto de vista da engenharia. O local exato escolhido por razões astronômicas era, infelizmente, o ponto mais instável de toda a praça. O solo ali era o “mais lamacento, mais argiloso”, pois ficava sobre o antigo leito do rio Auser. Ironicamente, o mesmo rio Auser, cujo curso foi alterado para facilitar o transporte dos imensos blocos de mármore, foi o responsável pela instabilidade, pois a torre foi erguida sobre seu antigo leito lamacento.

Lendas sobre operários mal pagos, maldições sarracenas ou intervenção divina são apenas folclore. O verdadeiro paradoxo é que a torre foi salva pela demora em sua construção, que levou quase dois séculos. As longas pausas permitiram que o solo macio assentasse e se compactasse, evitando o colapso. Ainda mais impressionante é a complexidade matemática de sua base: um pentadecágono (polígono de 15 lados), cujo projeto exigia conhecimento da sequência de Fibonacci, numa época em que o próprio Fibonacci era apenas uma criança. Isso revela uma cultura matemática avançada em Pisa, que demonstra que a cidade era um polo intelectual, e não apenas militar.

4. A Catedral Foi Construída com o Tesouro de uma Batalha Vencida.

A construção da magnífica Catedral de Santa Maria Assunta, iniciada em 1063, não foi financiada por impostos ou doações da igreja, mas com o butim de guerra. A riqueza veio diretamente dos tesouros saqueados após uma decisiva vitória naval contra os sarracenos em Palermo. Este ato, porém, transcendeu a mera construção de um edifício; ele alimentou a ambição multigeracional de criar um centro cívico e religioso que servisse como um testemunho eterno do poder de Pisa e da unidade de seu povo.

Este foi um ato de imenso orgulho cívico, pois as inscrições registram que cidadãos de todas as classes participaram da batalha: “Maiores, Medi, Pariterque Minores” (os maiores, os médios e igualmente os menores). A decisão de usar o “bottino degli infedeli” (tesouro dos infiéis) para construir sua catedral foi um poderoso gesto simbólico, demonstrando a força de Pisa como uma “nova Roma”. A história está imortalizada em um baixo-relevo na própria catedral, que retrata um carneiro (Pisa) derrotando uma serpente (os sarracenos) com a ajuda de uma ursa (a Virgem Maria).

5. A Torre Quase Caiu, mas Foi Salva por uma Ideia (Talvez) Inspirada por uma Criança.

O colapso catastrófico do Campanário de São Marcos, em Veneza, em 1902, foi o alerta que fez Pisa perceber que seu próprio símbolo era mortal. Essa percepção deu início a um século de estudos urgentes para salvar a torre. Na década de 1990, a situação tornou-se crítica. A inclinação atingiu 5 graus, e o risco de colapso forçou seu fechamento ao público. Após inúmeras tentativas fracassadas, a solução vencedora foi contraintuitiva e elegantemente simples.

Em vez de reforçar o lado que afundava, os engenheiros decidiram remover mais de 60 toneladas de terra do lado oposto, o lado que se erguia. Ao minar cuidadosamente o solo sob a base norte, eles permitiram que a gravidade endireitasse a torre suavemente. Uma lenda charmosa conta que a inspiração veio de Chunki Baban, uma menina de 9 anos de Bangladesh, que enviou um desenho mostrando figuras cavando a terra do lado mais alto. Embora engenheiros, como Leon Battista Alberti séculos antes, já tivessem considerado a ideia, a história da menina captura a genialidade da solução. Graças a essa intervenção, a torre foi estabilizada e está segura por pelo menos mais 300 anos.

A Beleza do Erro

A Praça dos Milagres é muito mais do que uma torre com uma falha de projeto. É um livro de história escrito em mármore, um testamento completo à ambição humana, à fé, ao conhecimento científico e a uma resiliência impressionante. Mais do que uma coleção de belos edifícios, é uma declaração teológica e cívica sobre a existência humana, do nascimento à morte, tornada eterna em pedra.

Talvez a maior lição deste lugar seja sobre a imperfeição. O erro que deveria ter levado a torre à ruína é precisamente o que a tornou imortal, transformando-a de um simples campanário em um ícone global. Como disse o escritor italiano Gianni Rodari:

“Os erros são necessários, úteis como o pão e, muitas vezes, também belos. A Torre de Pisa, por exemplo.”


Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 17 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

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