Para aqueles que procuram paz e tranquilidade interior entre a natureza da Toscana, o Eremitério (lugar onde vive os eremitas) Le Celle é definitivamente o local ideal. Este complexo, repleto de grande espiritualidade, está localizado cerca de cinco quilômetros do centro histórico da cidade de Cortona, na Toscana. Famoso principalmente por ter acolhido São Francisco. Segundo a tradição, aqui o Poverello de Assis, escreveu seu testamento espiritual.

Um pouco de história

A história do Eremitério Le Celle começa bem antes da chegada de São Francisco. O local era chamado de Le Celle (As Celas) devido à presença de pequenas cavernas esculpidas na rocha que eram utilizadas por pastores e agricultores locais que empregavam a força da água do pequeno riacho para alimentar os moinhos.

São Francisco chegou a Cortona em 1211 junto com Frei Silvestro. O Eremitério Le Celle foi o primeiro convento fundado por São Francisco de Assis, foi aqui que ele conheceu o jovem Guido Vagnotelli.

O Beato Guido Vagnotelli

Guido Vagnotelli nasceu em Cortona por volta do ano 1190, onde viveu uma infância serena e despreocupada. Aos vinte e poucos anos conheceu Francesco de Assis. Em 1211, relata as crônicas antigas, São Francisco foi hospedado na casa de Guido. O jovem Guido, conquistado pelo ideal franciscano, entregou seus bens aos pobres, abandonando tudo para se tornar frade. Ele recebeu o hábito na paróquia de Santa Maria, fundando a primeira comunidade franciscana da cidade, Guido se estabeleceu no Eremitério Le Celle, construindo para si uma cela escavada na rocha próxima ao riacho.

Tendo recebido certa educação, o jovem foi ordenado sacerdote em pouco tempo. São Francisco sempre falou entusiasticamente sobre Guido e mandou-o para predicar também em Assis. Guido morreu em 1247. Hoje Guido da Cortona é Beato e o seu culto foi reconhecido por Gregório XIII em 1583, estendido por Inocêncio XII a toda a Ordem. Franciscana.

E começa a construção

O terreno onde foi construído o Eremitério Le Celle foi doado a São Francisco pelo próprio Guido, o que foi muito bem-vindo porque era (e ainda é!) isolado no meio do bosque, perto de um riacho, com uma natureza estupenda o que favorecia o desejo de silêncio e contemplação; o magnífico panorama que São Francisco pôde admirar daqui era um grande convite para louvar o Senhor.

Poverello de Assis imediatamente fez algumas celas, incluindo aquela a qual utilizou várias vezes, até alguns meses antes de sua morte. A última visita de Francisco ao Eremitério Le Celle ocorreu quatro meses antes de sua morte, em maio de 1226. Vindo de Siena, onde Frei Elias, que na época liderava a Ordem Franciscana, o enviara para cuidar de uma séria doença ocular. Francisco morreu em Assis em outubro de 1226.

A presença de Francisco marcou a população local, incluindo Margarida de Cortona (padroeira da cidade), que se tornou a “terceira pérola do franciscanismo”, a grande penitente que seguiu de maneira heroica os passos de Francisco de Assis. Após a morte de Francisco, o Eremitério Le Celle foi ampliado por Frei Elias de Cortona. O lugar é rico de história e espiritualidade e entre as pessoas ilustres que viveram lá podemos citar Santo Antônio de Pádua, São Boaventura, São Lorenzo de Brindisi, Beato Guido da Cortona.

Este lugar passou por um período de negligência até 1537, quando foi cedido pelo bispo de Cortona à ordem dos frades capuchinhos. Nos séculos seguintes, o local passou por diversas restaurações e ampliações.

O Eremitério Le Celle hoje

Até 1988, o Eremitério Le Celle foi o local escolhido para formar os noviços capuchinhos, considerados a terceira ordem da família franciscana. Atualmente, existem poucos frades neste complexo que acolhem os peregrinos e pessoas que desejam passar um tempo em um lugar místico, em contato com a natureza.

Arquitetura do Eremitério Le Celle

O complexo do Eremitério Le Celle se ergue em um vale estreito que segue o curso de um riacho. Desde as primeiras expansões de Frei Elias, o complexo seguiu o vale e as amenidades do terreno. O que mais atrai a presença de peregrinos é a Cela de São Francisco, que foi esculpida na rocha. A cela é muito simples e austera, no estilo do Santo de Assis. No espaço em frente à cela ergue-se o Oratório, de forma retangular e antigamente era usado como dormitório para outros frades. O material de construção utilizado por Frei Elias foram as pedras locais.

Cela de São Francisco. A direita, uma pintura com a imagem de São Francisco e a esquerda o Beato Guido de Cortona.

Na entrada do Eremitério Le Celle encontramos o Oratório de San Franceschino, constituído por uma nave única e enriquecido com pinturas que retratam São Francisco. Outra arquitetura que merece uma visita é a Igreja dedicada a Santo Antonio de Pádua. Na parede esquerda, no entanto, você poderá ver em um nicho, a estátua de Santo Antônio de Pádua.

Uma das características distintivas do Eremitério Le Celle são as pontes, construídas para atravessar o riacho. A Ponte Barberini foi construída a pedido da família homônima que marcou sua presença aqui com Antonio Barberini, irmão do futuro Papa Urbano VIII.

A Ponte do Granduca, por outro lado, foi encomendada em 1728 pelo Grão-Duque da Toscana para substituir uma antiga travessia.

Como chegar ao Eremitério Le Celle

O Eremitério Le Celle pode ser alcançado a partir do centro de Cortona ao longo da estrada SP34. Nos meses mais amenos pode ser o destino ideal para um passeio a pé que começa a partir do centro histórico de Cortona.


Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

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