Os anos do final do século XV em Florença foram caracterizados pelas pregações de Girolamo Savonarola, o frei de Ferrara que era contra a ditadura dos Médicis e que deseja modificar os costumes da Igreja, que na época era guiada por um Papa muito discutido: Alessandro VI, ou seja, Rodrigo Borgia.

Savonarola prega contra o luxo e prepara a fogueira das vaidades. (quadro de ludwig von langenmantel, 1881)

As pregações apocalípticas de Savonarola encantavam não somente o povo, mas também os poderosos, que estavam cansados do poder exercido pela Igreja. Nos sermões pronunciados no mosteiro de São Marcos e no Duomo, o moralismo de Savonarola atacava principalmente o clero, mas também os costumes dos florentinos eram criticados pelo fanatismo do frei.

Savonarola propunha a abolição do luxo, das festas e o corte da língua de quem blasfemava. Criou um imposto para todos aqueles que conduziam uma vida desordenada, além de uma pena pesada para a homossexualidade e a sodomia.

A fogueira das vaidades

Assim, no dia 07 de feveiro de 1497, terça-feira de carnaval, uma grande procissão formada por homens, mulheres e crianças seguiram em direção a Piazza della Signoria, onde foi construída uma grande fogueira em forma de pirâmide que media cerca de 15 metros de altura.

A fogueira da vaidade naquele ano tinha um caráter revolucionário: queimar tudo que era símbolo do poder da decadência dos bons costumes e da boa moral significava eliminar os símbolos do poder dos Médicis e do Papa Borgia, que haviam corrompido a cidade e obrigado os florentinos a viverem no pecado.

Foram jogados na fogueira: espelhos, cosméticos, roupas luxuosas, instrumentos musicais, livros e quadros que tinham como tema a mitologia clássica. Pintores como Botticelli foram envolvidos por esta fúria destruitiva e abandonaram de livre vontade suas obras de arte na fogueira das vaidades.

Na realidade, as “fogueiras das vaidades” não eram novidade – no século XV, muitos pregadores, como Giovanni da Capestrano e Bernardino da Siena, adotaram essa tradição antiga, associada a um festival pagão como o Carnaval – em resumo a fogueira do carnaval, existia antes e depois de Savonarola.

Para Savonarola e seus seguidores, as fogueiras da vaidade eram um meio de cristianizar o carnaval e consolidar sua autoridade diante dos cidadãos de Florença, numa época em que a oposição a Savonarola começava a aumentar perigosamente.

O fogo deveria purificar as consciências e fazer com que nenhum poder, principalmente daqueles considerados tiranos, se colocassem entre os florentinos e Cristo, declarado Rei. Após a segunda expulsão dos Médicis e o retorno da República Florentina, os apoiadores de Savonarola colocaram na fachada do Palazzo Vecchio a proclamação de Cristo Rei:

“Iesus Christus rex Fiorentini populi S.P. Descrto Electus.”

A frase revolucionária foi corrigida por Cosimo I no momento no qual ele conquistou o poder absoluto, alguns anos mais tarde:

Rex Regum et Dominus Dominatium” (Reis dos Reis e Senhor dos Senhores).

O declínio definitivo de Savonarola começou justamente nos dias seguintes à terça-feira de carnaval de 1497: os florentinos, hostis ao frade, começaram a sabotar os sermões, jogando entranhas de burro no púlpito, um sintoma claro do fato de que a cidadania não o amava mais. Alexandre VI, o papa Borgia, o principal alvo polêmico de Savonarola, o excomungou em maio daquele ano.

O declínio de Savonarola

A morte de Savonarola

Em 27 de fevereiro do ano seguinte (1498), Savonarola construiu um púlpito em frente a Santa Maria del Fiore, do qual ele invocou o julgamento de Deus. Segundo o cronista Pietro Parenti, a multidão permaneceu imóvel para esperar os milagres de Savonarola e nada aconteceu.

Naquele dia, uma nova fogueira das vaidades foi preparada, maior que a anterior – mas desta vez a procissão das milícias de Savonarola, que trouxeram livros, cosméticos e espelhos extorquidos da cidadania para alimentar a fogueira, foi recebida com insultos.

Em 23 de maio do mesmo ano, houve uma nova fogueira na Piazza della Signoria: desta vez,quem foi queimado como herege, após o enforcamento, era o próprio Savonarola.


Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

0 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *