Verrocchio, o mestre de Leonardo é uma exposição imperdível que abre uma janela temporal sobre Florença do século XV, através das 120 obras expostas. A exposição inclui pinturas, esculturas e desenhos, de mais de setenta museus e coleções privadas, entre os quais sete obras de Leonardo da Vinci, algumas das quais expostas pela primeira vez na Itália.

As oficinas de arte do Renascimento

Verrocchio, o mestre de Leonardo no Palazzo Strozzi em Florença.
Fachada Palazzo Strozzi, Florença

Escuro, fedor e barulho. Se uma máquina do tempo pudesse nos levar de volta nos séculos, ou melhor no século XV em Florença, ficaríamos impressionados não apenas com o grande número de oficinas de artistas ativas na cidade, mas sobretudo por sua aparência singular. A imagem do artista pensativo que, ajudado pela Musa, cria seu trabalho imortal na solidão em um ateliê cheio de silêncio e luz é algo muito longe da realidade do Renascimento Florentino.

Durante séculos, artistas criaram suas obras-primas em cômodos sem janelas, sujos, fedorentos e barulhentos, em meio a fileiras de colegas e colaboradores dedicados a desenhar, pintar, modelar, esculpir, gravar e fundir. E todas essas atividades geralmente aconteciam sob a orientação de um único personagem carismático: o Maestro.

Verrocchio, o mestre de Leonardo - Palazzo Strozzi, Florença
Pátio do Palazzo Strozzi

Muitos dos artistas mais famosos do Renascimento não eram apenas artesãos qualificados, mas também proprietários de oficinas muito eficientes. Uma das oficinas mais famosas em Florença no século XV era a de Andrea del Verrocchio (Florença, por volta de 1435 – Veneza, 1488). A oficina de Verrocchio representa um caso emblemático e lhe dedicou uma bela exposição: Verrocchio, il maestro di Leonardo da Vinci no Palazzo Strozzi de Florença (com uma seção especial no Museu Nacional do Bargello) até 14 de julho de 2019, com curadoria de Francesco Caglioti e Andrea De Marchi.

Primeira sala da exposição no Palazzo Strozzi: Verrocchio, o mestre de Leonardo
Primeira sala da exposição no Palazzo Strozzi: Verrocchio, o mestre de Leonardo

A exposição não é apenas belíssima, mas é extremamente original porque é a primeira dedicada a este personagem chave na Florença de Lorenzo o Magnífico. Verrocchio trabalhou lado a lado com jovens artistas promissores como Leonardo da Vinci, Ghirlandaio, Lorenzo di Credi e Perugino.

Não é difícil explicar o motivo pelo qual nunca foi feito uma exposição dedicado ao grande Mestre. Verrocchio foi acima de tudo um mestre estraordinário de grandes dimensões. As suas maiores obras-primas, felizmente quase todas bem conservadas, ainda permanecem no local para as quais foram encomendadas. Podemos citar o túmulo de Cosimo Il Vecchio na cripta da Basílica de San Lorenzo em Florença, os túmulos de Giovanni dei Bicci, Pietro il Gotoso na Sacristia Vecchia, na mesma basílica, o monumento equestre de Bartolomeo Colleoni em Veneza e o cenotafio do cardinal Fonteguerri para a catedral de Pistoia. Todas ausentes da exposição, obviamente, porque são obras de grandes dimensões e impossíveis de serem transportadas.

A exposição: Verrocchio, o mestre de Leonardo

Primeira sala da exposição no Palazzo Strozzi: Verrocchio, o mestre de Leonardo
Primeira sala da exposição no Palazzo Strozzi: Verrocchio, o mestre de Leonardo

Um painel introdutório no início da exposição enquadra o personagem. O nome exato de Verrocchio era Andrea di Michele di Francesco Cioni, seu pai fazia tijolos e a família morava na paróquia florentina de Sant’Ambrogio. Em 1452, o jovem Andrea se meteu num grande problema: durante uma brincadeira de lançar pedras, ele acidentalmente atingiu seu amigo Antonio di Domenico, que morreu depois de treze dias de agonia. Andrea escapou da acusação de assassinato graças ao acordo de paz assinado entre seu pai Michele e o pai da vítima, Domenico di Antonio, na presença de uma testemunha decisiva, o ourives Francesco Verrocchio, que provavelmente já era o mestre de arte de Andrea e do qual (será?) deriva o famoso apelido (Verrocchio) do jovem Andrea. Existe uma outra versão que diz que Verrocchio pode ter adotado esse apelido, após 1475, quando realizou o painel funerário do frade Giuliano Verrocchio, irmão de Francesco, em Santa Croce.

Acredita-se que Verrocchio começou sua carreira como ourives com Francesco Verrocchio (até 1453) e aperfeiçoou-se nesta especialidade com Antonio Dei, pai de Bartolomeo della Gatta, futuro aluno de Verrocchio. Então, em 1456, ele abandonou a joalheria, talvez devido à falta de comissões, o que até levou ao fracasso da oficina de Dei. O próprio Andrea declarou ao Catasto de 1458 (seria de forma grosseira uma espécie de declaração de renda) que era muito pobre e não tinha dinheiro para comprar meias pois tinha deixado o seu trabalho de ourives por falta de encomendas.

Verrocchio voltou o olhar para a escultura provavelmente quando foi a Roma no tempo do Papa Sixto IV (1471-1484) para forjar alguns dos 12 apóstolos de prata do altar da Capela Sistina. E assim, de frente a Marco Aurélio e aos restos antigos, encontrou o ponto de apoio da sua expressão artística no mármore e no bronze.

Nem mesmo Giorgio Vasari, nos diz quem foi o mestre de escultura de Verrocchio. Os textos biográficos anteriores a Vasari nos dão duas pistas preciosas: Donattelo e Desiderio da Settignano. O seu amadurecimento artístico aconteceu provavelmente na oficina de Donatello, embora tenha sido Desiderio da Settignano, pouco mais velho que Andrea, que lhe ensinou a esculpir o mármore.

Com habilidade e sensibilidade, Verrocchio conseguiu captar os movimentos do corpo e da alma e infundi-los nos bustos femininos que como uma “cortejo mágico” dão as boas-vindas ao visitante na primeira seção da exposição: a Dama dal mazzolino (Dama do buquê) do Bargello destaca-se acima de tudo, cujas mãos cruzadas no peito inspirou diretamente o aluno mais famoso de Verrocchio, Leonardo da Vinci.

Estudo de braços e  mãos femininas proveniente do Castelo de Windsor. Leonardo da Vinci
Detalhe estudo de braços e mãos femininas proveniente do Castelo de Windsor. Leonardo da Vinci, 1474-1486 cerca

Leonardo é presente na sala com o estudo de braços e mãos femininas proveniente do Castelo de Windsor. Provavelmente fazia parte do desenho preparatório para o Retrato de Ginevra de ‘Benci, de Washington, ou ainda da Dama dell’ Ermelino (Cracovia, Muzeum Narodowe).

Hábil no trabalho de mármore, Verrocchio era igualmente hábil em fundir o bronze, criando no nobre metal obras muito famosas como o David do Bargello, exibido na segunda seção (dedicado aos antigos heróis) e relacionado a outro estudo de Cabeças e Figuras de Leonardo (Windsor, Royal Collection).

Estudo de Cabeças e Figuras de Leonardo (Windsor, Royal Collection).

Leonardo não só retrata a estátua do mestre várias vezes, mas mostra como seus perfis são inspirados pelos relevos de mármore dos heróis e heroínas da antiguidade, feitas por Desiderio da Settignano e Verrocchio. Um tema, o do perfil, será então retrabalhado pelo próprio Leonardo até se tornar uma caricatura.

Virgem e o Menino - Verrocchio
As diversas Virgem e o Menino de Verrocchio

Ao lado da escultura, Verrocchio cultiva a arte da pintura, destacando-se como pintor de afrescos (o fragmento com São Jerônimo arrancado da igreja de San Domenico em Pistoia é exibido) e acima de tudo como o inventor de uma tipologia da Virgem com o Menino (em mostra as versões de Berlim e Londres), que foram imediatamente tomadas como modelos por Botticelli e por Perugino (que era seu aluno), ou re-proposto sob a forma de um baixo-relevo escultural por Francesco di Simone Ferrucci, fiel seguidor e colaborador de Verrocchio.

Perugino – que participou da oficina de Verrocchio – exportou o estilo de Verrocchio primeiro para a Úmbria e depois para Roma. De fato, as Histórias de São Bernardino em exibição na seção 5, realizadas por Perugino, no qual o muito jovem Pintoricchio também colaborou, são definitivamente verrocchiesche.

Domenico Ghirlandaio, primeiro professor de pintura do jovem Michelangelo, também participou da oficina verrocchiesca entre 1470 e 1472, convertendo a linguagem sólida do mestre em uma doçura mais excêntrica (como visto na exposição com a Virgem e o Menino de Edinburgh).

Muito diferente foi a rígida influência de Verrocchio no monge Bartolomeo della Gatta, filho do ourives Antonio Dei (mestre do jovem Verrocchio) presente com a grande Assunção do Museu Diocesano de Cortona.

Verrocchio visitou Roma por volta de 1480 durante o pontificado de Sixtus IV della Rovere (seção 6). Para o altar da Capela Sistina, Andrea executou algumas estátuas de prata dos Apóstolos, hoje perdidas, enquanto em seus antigos alunos e seguidores, especialmente Perugino e Ghirlandaio, estavam empenhados em pintar as Histórias de Moisés e Jesus nas paredes da Capela Papal.

Ainda em Roma, na igreja Santa Maria sopra Minerva, Verrocchio também projetou o túmulo de Francesca Pitti Tornabuoni, que morreu tragicamente no parto, como narra a impressionante lápide esculpida por Francesco di Simone Ferrucci, o alter ego de Verrocchio.

A estadia em Roma foi uma ocasião propícia para Verrocchio mergulhar no classicismo, e o diálogo com os modelos clássicos é revelado acima de tudo na criação de esculturas ao ar livre. Andrea ajudou a estabelecer um modelo monumental de fontes que consistia em uma série de bacias concêntricas e sobrepostas, como em um candelabro.

No ápice estavam figuras como o animado Anjinho alado com o golfinho do Palazzo Vecchio. O artista mostrou grande virtuosismo na realização de candelabros, como aquele de bronze (magnífico) feito para a Signoria florentina, proveniente de Amsterdã.

Entre as esculturas que foram feitas para serem colocadas “ao ar livre”, as duas maiores obras são: A Incredulidade de São Tomé modelada por um dos nichos de Orsammichele (exibido na seção de exposições no Bargello) e o colossal monumento equestre de Bartolomeo Colleoni em Veneza (obviamente deixada em sua localização original).

O monumento equestre e Veneza foi a última obra-prima do mestre antes de sua morte na Laguna, e que é evocada na exposição por um desenho com estudos de medição do cavalo.

Em 1475, Verrocchio também trabalhou em Pistoia, com o retábulo da capela da Madonna di Piazza, erguido pelo bispo Donato de ‘Medici, e o cenotáfio do cardeal Niccolò Forteguerri para o Duomo. Em exposição estão os maravilhosos modelos de terracota.

Leonardo da Vinci, drapeado de uma figura sentada, visto quase frontalmente - 1475/1480 - Louvre - Paris
Leonardo da Vinci, drapeado de uma figura sentada, visto quase frontalmente – 1475/1480 – Louvre – Paris

A última seção (Da Verrocchio a Leonardo) é de uma beleza e intensidade em movimento: gira em torno dos estudos dos tecidos, ou claro escuro de peças isoladas de drapeados, especialmente os vestidos de Maria. Na segunda metade do século XV, o estudo do claro-escuro dos drapeados assumiu o valor de um gênero autônomo e, na oficina de Verrocchio, tanto o mestre Andrea quanto o aluno Leonardo realizaram estudos de tecidos pintados em finas telas de linho que reproduziam os drapeados reais dos vestidos, embebidos em cera ou terra líquida e colocado em manequins.

Superfícies monocromáticas ganham vida através da luz, nas roupas realizadas por Verrocchio com cortes mais exatos, nas de Leonardo com transições mais sutis. As estruturas rigorosas de Verrocchio também amolecem como na Virgem com o Menino feita em terracota proveniente do Museu Victoria and Albert, em Londres, que Francesco Caglioti propõe como provavelmente a única obra plástica conhecida de Leonardo, realizada pelo artista ainda jovem na oficina do mestre.

Com essa obra, se conclui a exposição de Palazzo Strozzi. Vale a pena continuar a descoberta das obras de Verrocchio na seção do Museu do Bargello, onde é possível admirar a escultura de bronze A Incredualidade de São Tomé, crucifixos de madeira e diversas cabeças de Cristo em terracota.

Para conhecer outras obras-prima do mestre Verrocchio aconselhamos visitar a Sacristia Vecchia na Basilica de San Lorenzo, onde o mestre realizou os tumulos dos Medici, o Uffizi e o Museu da Opera do Duomo.

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Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

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