Poder, arte e paixão sempre distinguiram a vida de Artemisia Gentileschi, uma das maiores pintoras do século XVII. Usando as armas de sua própria personalidade e suas qualidades artísticas contra os preconceitos expressos em relação às mulheres pintoras, ela conseguiu entrar ativamente no círculo dos pintores mais conceituados de sua época.

Um pouco de história

Artemisia Gentileschi, Susanna e i vecchioni, 1610 cerca, Castelo de Weißenstein
Artemisia Gentileschi, Susanna e i vecchioni, 1610 cerca, Castelo de Weißenstein

Artemisia foi uma pintora da escola Caravaggesca, considerada uma revolucionária ícone feminista e uma artista inovadora pela energia avassaladora que ela sabia infundir na representação da figura feminina.

Artemisia cresceu em Roma, numa época em que a cidade era o centro da pintura. Era a filha mais velha do pintor Orazio Gentileschi, ficou órfã de mãe aos doze anos de idade. Embora tivesse que cuidar dos três irmãos e das tarefas domésticas, logo demonstrou interesse na profissão de seu pai, cujo ateliê ficava ao lado da casa deles. Na época, a pintura era vista como uma prerrogativa masculina, mas graças ao incentivo paterno, Artemisia decidiu seguir esse caminho.

Naquela época, Michelangelo Merisi, já conhecido como Caravaggio, operava em Roma, com quem Orazio tinha amizade; certamente Artemisia, como muitos outros colegas, também ficou impressionada com o artista que introduziu o realismo na pintura.

A formação artístitica de Artemisia ocorreu no ateliê de seu pai, frequentado por muitos pintores, incluindo Agostino Tassi, que ensinou Artemisia a técnica da perspectiva.

A violência sexual

Autorretrato Artemisia Gentileschi – Alegoria da Pintura

Quando Agostino Tassi começou a frequentar a casa na via della Croce, onde moravam os Gentileschi, ele ainda não tem trinta anos, era feio, mas sedutor. Artemisia, de dezoito anos, se sentiu lisonjeada por suas atenções, talvez tenha se apaixonado, talvez tenha acreditado nas promessas de casamento feitas pelo pintor. Em um dia de maio de 1611, enquanto Orazio trabalha no andaime da Loggetta delle Muse, Agostino estuprou Artemisia.

Naquela época, a violência sexual não era considerada crime contra as mulheres, mas contra a honra da família e Tassi, para evitar uma condenação, ofereceu um casamento reparador. Mas um ano após a promessa, o casamento ainda não havia ocorrido e Artemisia decidiu denuncia-lo por estupro – alguns historiadores afirmam que foi Orazio, o pai de Artemisia quem tomou a decisão de fazer a denúncia.

O processo

Durante o processo Artemisia sofreu diversas humilhações, tanto fisicamente como psicologicamente. Para verificar a veracidade das declarações feitas, as autoridades judiciais chegaram a ordenar que Gentileschi fosse submetida a interrogatório sob tortura, a fim de acelerar – de acordo com a mentalidade jurisdicional vigente na época – a verificação da verdade. No entanto, ela queria ver seus direitos reconhecidos e, apesar das dores que foi forçada a sofrer, não alterou seu depoimento.

O estuprador será sentenciado, mas, acima de tudo, a pintora sairá do processo muito afetada: sua honra e a da família Gentileschi foi comprometida para sempre. Foi assim que, em 27 de novembro de 1612, as autoridades judiciais condenaram Agostino Tassi por “defloração” e, além de impor uma sanção pecuniária, o sentenciaram a cinco anos de prisão ou, alternativamente, ao perpétuo exílio de Roma.

Como era de se esperar, o agressor optou pelo exílio, apesar de nunca ter cumprido a sentença: na verdade, ele nunca se mudou de Roma, pois seus poderosos protetores romanos exigiam a presença física do pintor na cidade.

Artemisia Gentileschi em Florença

Logo após o final do julgamento, Artemisia, incitada por seu pai para silenciar os rumores já que após o processo a pintora era considerada quase uma prostituta em Roma, Artemisia se casou com o pintor florentino Pierantonio Stiattesi e se mudou para Florença. Artemisia trouxe consigo uma carta escrita por seu pai para apresentá-la à corte dos Médici. O círculo do grão-duque Cosimo II se abriu para a jovem e talentosa pintora e logo, sua fama em Florença, cresceu rapidamente.

Artemisia Gentileschi - Judite e a serva - Palazzo Pitti
Judite e a sua serva – Artemisia Gentileschi – Palazzo Pitti – Florença

Enquanto isso, Artemisia, até então analfabeta, aprendeu a ler e escrever e, assim, tornou-se amiga de homens ilustres como Galileo Galilei e Michelangelo, o Jovem, descentende do grande pintor e escultor renascentista. Em 1616, ela foi a primeira mulher a ser admitida na Academia de Desenho, fundada cerca de 50 anos antes pelo Grão-Duque Cosimo I, por sugestão de Giorgio Vasari.

O casamento organizado pelo pai mostrou-se útil sobretudo ao marido, muito feliz com o sucesso da esposa que, entre outras coisas, providenciou o sustento da família (nos anos seguintes, o casal terá quatro filhos). Artemisia também descobriu o amor, não com o marido, mas com um nobre florentino chamado Francesco Maria Maringhi, um alto funcionário da corte dos Medicis. Inúmeras cartas, que apareceram alguns anos atrás, são testemunho de seu relacionamento.

As obras

Artemisia ganhou a fama de grande pintora, não somente por causa do seu talento, mas também por causa da sua inteligência e cultura. No cenário artístico florentino, Artemisia se transformou em uma verdadeira protagonista.

Judite e Holofernes, Artemisia Gentileschi – Uffizi

Durante sua vida, Artemísia pintou retratos e obras bíblicas, todas animadas por uma expressividade violenta e fortes contrastes de claro-escuro, marca inconfundivel dos caravaggescos. Ela pintou pelo menos sete versões de Judite e Holofernes (uma é conservada nas Gallerie delle Uffizi em Florença), pinturas violentas e sombrias, que são oportunidades para a artista de se representar em autorretratos reais, não apenas figurativos, mas também psicológicos. Artemisia, no entanto, também cria alguns dos nus femininos mais sensuais, nos quais as formas da sua figura são reconhecíveis.

Esquerda: Judite e Holofernes, de Artemisia Gentileschi. Direita: Caravaggio, 1597.

Uma rápida comparação entre Judite e Holofernes de Caravaggio e Gentileschi é suficiente para entender do que estamos falando: a Judite de Caravaggio tem um olhar intimidado, assustada com a visão do sangue, como se a ela não estivesse matando Holofernes por sua própria vontade, mas forçada por um desejo que não é seu. A Judite da Artemísia, por outro lado, é um alter-ego da pintora que comete o assassinato de Holofernes / Tassi de maneira consciente: seus olhos não fogem, ela é forte, determinada e consciente de seu ato.

Das 60 pinturas que lhe são atribuídas, com certeza, 40 representam figuras femininas: de Maria Maddalena a Santa Caterina, de Esther a Judite, Artemisia Gentileschi não apenas transfigurou a dor do estupro: ela também deu voz às mulheres e reivindicou sua posição no mundo. história e arte. As mulheres representadas nas obras de Artemisia são fortes, decididas, sensuais, muito diferentes das mulheres angelicais representadas por outros pintores da época.

Em Florença podemos admirar as obras de Artemisia Gentileschi nas Gallerie degli Uffizi, Galleria Palatina no Palazzo Pitti e na Casa Buonarroti.

Roma, Veneza, Londres e Nápoles

Mais tarde Artemisia decide de se mudar para Roma. Era imporante retornar à Cidade Eterna e receber encomendas dos cardeais e Papa. O seu retorno à Roma, foi muito diferente da sua partida. Agora Gentileschi era uma grande artista reconhecida por muitos pintores da época.

Depois Artemisia gira pela Itália: vai a Veneza, Nápoles e até Londres para encontrar o pai na corte de Carlos I Stuart, um apaixonado por arte. Em Londres, Artemisia soube tecer relacionamentos preciosos com importantes comissários de arte da época, criando obras repletas de sentimentos, inquietação e preciosos efeitos de iluminação.

Artemisia retorna a Nápoles e o estúdio da pintora se torna uma espécie de academia: numerosos jovens pintores participam de suas comissões. Artemisia talvez tenha morrido em 1656. Ela está enterrada na igreja de San Giovanni dei Fiorentini, em Nápoles, sob uma placa (agora perdida), com a seguinte redação: heic Artimisia.

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Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

2 comentários

Amanda · outubro 22, 2020 às 12:00 am

Nossa estou adorando conhecer as obras dela!! Uma artista incrível que se destaca entre os outros de seu tempo, sério. Sensacional.

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