Poucas obras de arte, viveram uma história inquieta e mutável como o celebríssimo David de Michelangelo. O “Gigante” como era chamado pelos florentinos, foi concebido como parte integrante de um grande programa de decoração escultórica para a Catedral Santa Maria del Fiore em Florença.

O bloco de mármore

Settimana Michelangiolesca 2015: modelo do bloco de mármore do David exposto na Piazza della Signoria . Foto: La Nazione.

O enorme bloco de mármore do qual Michelangelo realizou o David chegou em Florença em 1463, provavelmente sob indicação de Donatello, para que o escultor Agostino di Duccio pudesse realizar o herói bíblico em 1464.

A morte de Donatello e as dificuldades de Agostino marcaram a falência do projeto e claro, o abandono do bloco que já tinha sido começado a ser esculpido pelo artista nos depósitos da Opera di Santa Maria del Fiore. Antonio Rosselini também tentou esculpir o mármore em 1476, mas logo depois desistiu do projeto. De fato, o mármore era defeituoso e muito frágil, além dos inúmeros “taròli”, ou seja, pequenas cavidades na superfície. O grande bloco de mármore ficou abandonado nos depósitos da Opera del Duomo por quase 40 anos.

Segundo os biografos de Michelangelo, o bloco de mármore media cerca de 9 braccia fiorentine (cada braccio fiorentino, antiga unidade de medida, media 0.5836m), é original dos Alpes Apuanos, da pedreira dos Fantiscritti em Carrara.

Michelangelo

O David de Michelangelo antes de ser a imagem cívica da República de Florença, era, assim, destinado a decorar o contraforte externo do Duomo. Assim, com a chegada do novo século, a OPA (Opera del Duomo), decidiu oferecer o bloco somente a um escultor capaz de realizar a colossal escultura.

Antiga oficina da OPA, onde Michelangelo esculpiu o David. Hoje é a bilheteria do Museus Opera del Duomo.

Nesta época Michelangelo estava em Roma, e segundo Giorgio Vasari, ele foi informado por alguns amigos das intenções da OPA de confiar o famoso bloco de mármore ao escultor Andrea Sansovino. Assim, Michelangelo decidiu deixar Roma e retornar à Florença para apresentar o seu projeto.

Alguns historiadores não acreditam muito na versão Vasariana, tendo em vista que Michelangelo na mesma época, assinou um contrato com o Cardeal Todeschini Piccolomini para realizar as estátuas da capela da família no Duomo de Siena. Porém, é possível que o contrato com Piccolomini tenha sido finalizado mais rápido, tendo em vista que a Opera del Duomo se tratava de uma organização que envolvia mais pessoas e com procedimentos mais longos.

Em Setembro de 1501, Michelangelo iniciou a esculpir o famoso bloco de mármore que havia sido abandonado por Agostino. Michelangelo recebeu pela obra cerca de 06 florins por mês, totalizando 144 florins. Com certeza Michelangelo tinha consciência que a sua obra teria marcado uma época, consagrando-o como o maior escultor de Florença.

Sabemos através de documentos que uma das primeiras intervenções do artista no bloco fora duas marteladas na área destinada ao peito da escultura para retirar um defeito no mármore. O contrato assinado por Michelangelo previa a realização da obra em dois anos. Em fevereiro de 1503 o David foi definido “iam semifactum”. Uma primeira, não oficial inauguração aconteceu em 23 de junho de 1503, véspera da festa de São João, padroeiro da cidade. Na verdade, o que aconteceu, é que foram abertas as portas do local aonde o David foi esculpido para que a população pudesse ver o “Gigante”. Finalmente no dia 25 de março de 1504, a colossal escultura foi finalizada.

A comissão dos artistas

Instalação do David di Michelangelo no Duomo 2010-11-11 foto: Niccolò Cambi / Massimo Sestini

De frente a uma obra assim magnífica e grandiosa, foi necessário instituir uma comissão, que nos meios acadêmicos ficou conhecida como “A disputa”, para solicitar pareceres técnicos sobre uma nova colocação do David de Michelangelo. Tal iniciativa implicava, evidentemente, com a renúncia do plano original de colocá-lo em uma das Tribunas de Santa Maria del Fiore.

Entre os componentes da comissão podemos citar: Sandro Botticelli, Leonardo da Vinci, Antonio da Sangallo, Giuliano da Sangallo, Filippino Lippi, Andrea della Robbia, Perugino, Il Cronaca, Piero di Cosimo e outros.

Detalhe dos registros da “Disputa” dos Artistas conservados nos arquivos da Opera del Duomo.

O início do debate foi aberto no dia 25 de janeiro de 1504 pelo representante da Signoria de Florença: Francesco Filarete. Para colocação do David de Michelangelo, ele indicou dois lugares: em frente ao Palazzo Vecchio, onde estava a Judite e Holofernes de Donatello ou no centro do pátio do Palazzo Vecchio, onde estava o David de bronze, também de Donatello que hoje é conservado no Museu do Bargello em Florença.

Para Cosimo Rosselli, pintor que em 1480 estava no time toscano que afrescou a Capela Sistina, o melhor local para colocar o David, era entorno ao Palazzo Vecchio. Mas ele também havia pensado na escadaria do Duomo, assim todos os viajantes poderiam admirá-lo. Botticelli, apesar de não excluir o arengario do Palazzo Vecchio e a Loggia dei Lanzi, concordou com Cosimo Rosselli, que o melhor lugar, para poder ser visto por todos os viajantes, era a parte setentrional da escadaria do Duomo.

Reprodução da colocação do David no arco central da Loggia dei Lanzi

Giuliano da Sangallo disse que colocar o David na escadaria do Duomo poderia ser uma boa ideia, se o mármore com o qual foi feito a escultura não fosse tão frágil. Giuliano era arquiteto e sabia dos danos que as chuvas poderiam causar ao mármore imperfeito do David. Ele propôs então que o David fosse colocado em um local coberto, protegido das chuvas, ou seja, em um arco no meio da Loggia della Signoria. Com Giuliano começou-se a pensar na conservação da obra.

Muitos artistas que participaram da comissão julgaram que as colocações de Guiliano eram sábias, entre eles Leonardo da Vinci que disse: “ Eu confirmo que esteja na lógia, onde disse Guiliano”. Porém Leonardo recordou que a Loggia dei Lanzi era um local onde era celebrado as reuniões da República Florentina, e talvez fosse melhor que o David não fosse colocado no meio do edifício, mas no arco próximo do Palazzo Vecchio, onde hoje se encontra o Perseu de Benvenuto Cellini.

Muitos participantes da comissão, entre eles Piero di Cosimo e Filippino Lippi disseram que talvez fosse melhor saber qual era a vontade de Michelangelo, já que foi ele quem concebera a obra. Não sabemos se realmente Michelangelo foi ouvido pela comissão, provavelmente não.

E Michelangelo? Onde ele preferia que fosse colocada a sua obra-prima? Michelangelo não participou desta comissão de artistas, mas segundo Raffaello Borghini, que escreveu 80 anos mais tarde, o Buonarrotti teria preferido que o David fosse colocado dentro de um nicho onde tivesse um ponto de vista obrigatório.

O documento sobre a reunião com os pareceres dos artistas, são conservados na Opera del Duomo de Florença, a qual fez uma exposição sobre o tema em 2019.

Essas foram as preferências primárias dos 21 artistas participantes da “Disputa”:

  • 10 escolheram a Loggia na Piazza della Signoria, dos quais 06 no arco do meio;
  • 05 para o Palazzo Vecchio (03 em frente ao palácio e dois no pátio);
  • 03 para o Duomo;
  • 03 para que Michelangelo decidisse o que fosse melhor.

Muitos estudiosos acreditam que a decisão de colocar o “Gigante” em frente ao Palazzo Vecchio, onde antes estava a Judite de Donatello e onde hoje está a réplica do David, já tinha sido tomada a nível governativo, independente da reunião dos artistas. A reunião teria tido uma função meramente justificativa ex post, ou seja, para obter de certa forma um aval (mais ou menos manipulado), de uma série de especialistas. Enfim, o significado cívico do David prevaleceu sobre aquele religioso.

A viagem do David

Entre 14 de maio e 08 de junho de 1504 a estátua foi transferida do ateliê da OPA localizado onde hoje é o Museu do Duomo até a Piazza della Signoria. Foram necessários mais de 40 homens e uma complicada máquina projetada pelos arquitetos e engenheiros Antonio da Sangallo, Simone del Pollaiolo, conhecido como Il Cronoca, Baccio d’Angelo e Bernardo del Cecca para transportá-lo.

O transporte do David da Piazza della Signoria para o museu Galleria dell’Accademia

Durante a primeira noite de transporte, o David foi apedrejado por quatro jovens cidadãos – não sabemos se foi por motivos políticos ou vandalismo – Esse foi o primeiro, dos muitos danos que a escultura sofrerá no decorrer dos séculos.

Em 11 de junho de 1504, foi confiada à Antonio da Sangallo e ao Cronoca a projetação da base de mármore que ainda hoje vemos em uma versão reduzida aos pés do David, na Galleria dell’Accademia.

Em frente ao Palazzo Vecchio, o David recebeu os últimos acabamentos feitos pelas mãos de Michelangelo. Não temos documento que comprove se a escultura recebeu na época alguma aplicação protetiva – provavelmente sim, pelo menos para fechar os perigosos buraquinhos da superfície do mármore.

Sabemos com certeza através de documentos e de traços deixados na escultura que o David recebeu douradura na funda e no tronco o qual apoia a perna direita. Uma guirlanda realizada com folhas 28 folhas metálicas douradas foi comprada, mas é incerto se realmente ela foi aplicada na escultura.

O David foi inaugurado oficialmente no dia 08 de setembro de 1504, em ocasião de uma grande festa religiosa: a Natividade da Virgem Maria.

O David de Michelangelo permaneceu na Piazza della Signoria até 1873, quando, por motivos de conservação, foi transferido para a Galleria dell’Accademia, onde se encontra até os dias de hoje. No local do original, foi colocado uma réplica somente em 1910.

Iconografia

Com o David, Michelangelo se colocou na longa linha da tradição artística florentina e ao mesmo tempo trouxe uma grande inovação.

A majestosa escultura do jovem nu representa o pastor heroico que segundo a Bíblica, venceu o gigante Golias, general dos Filisteus, lançando uma pedra da funda. David é o símbolo dos justos, que apesar da sua fragilidade, prevalece sobre o forte inimigo Golias.

O David é o herói bíblico mais representado na arte florentina, onde o protagonista do Antigo Testamento surge como ícone cívico da defesa da pátria e da ajuda divina contra o inimigo. Mestres como Ghibert, Verrocchio, Donatello representaram o David. Na maior parte das representações, David aparece vitorioso, geralmente com a espada e com a cabeça de Golias, a refletir sobre o grande combate.

Enquanto muitos artistas representaram o David como um pastor, Michelangelo representou o herói bíblico como forte, corajoso, com físico de atleta. Quanto ao momento que o David de Michelangelo é representado, com certeza não se trata de uma celebração da vitória, pois faltam elementos importantes, como a espada e a cabeça de Golias.

Michelangelo representou o seu David, no instante no qual ele observa a chegada do adversário e se prepara para lançar as pedras da funda, que atingirá a testa de Golias. A funda é uma arma simples, muito utilizada pelos pastores: trata-se de uma faixa longa, feita provavelmente de couro. Segundo a historiadora da arte, Cristina Acidini, o David segura a funda em sua mão direita pelas duas pontas, uma das quais está ligada a uma forma que é provavelmente identificada como um segmento de um chifre; é sugestivo lembrar que o Profeta Samuel já havia ungido o David, como escolhido pelo Senhor para suceder Saul no trono de Israel, com o óleo que ele guardava em um chifre. A mão esquerda, parece que foi representada no gesto de colocar pelo menos uma pedra na posição desejada, cujo volume da funda aumenta ligeiramente. Há também a opinião de que a funda é vazia e que suas saliências simplesmente aludem à espessura do couro.

Detalhe da mão esquerda do David com a funda.

A pose do David é tão estudada e descrita, que nos faz imaginar o próximo momento: a mão esquerda solta a empunhadura, a funda desliza pelas costas, o braço direito estendido começa a girá-la em grandes voltas até que, liberando uma parte, a pedra que mira a testa de Golias, parte. Como demonstra o olhar do David, podemos presumir que Golias está se aproximando do seu lado esquerdo; neste caso, o corpo se torcerá sobre si mesmo, girando sobre o pé esquerdo que já está saliente.

Se essa interpretação da pose do David for aceita, podemos pensar que a sua expressão não reflete tanto o orgulho ameaçador ao ver o inimigo, mas sim uma profunda concentração no cálculo a ser dado à rotação da funda e na mira, para que a pedra acerte o alvo, ou seja, Golias.

O David não é somente a superação da arte clássica, como disse Vasari, mas é também um potente símbolo político. Florença conheceu naquela época, em poucos anos a expulsão dos Medici, a República, Savonarola. O jovem herói bíblico se transformou em um símbolo de liberdade política. Na narração bíblica o pastor indefeso consegue, sustentado pela ajuda divina, vencer o campeão dos inimigos de Israel, o gigante Golias, que combatia pelos filisteus. Eis o porquê a cidade de Florença reconhecia no David o símbolo da própria força, que vencia os seus inimigos muito mais fortes do que ele. Um jovem David com uma funda na mão, que defendeu e governou o seu povo com justiça, assim, quem governava Florença, deveria defendê-la e com justiça governá-la.

O David, que mais parece um atleta nu, exprime o senso de independência e liberdade que animava a orgulhosa República de Florença nos primeiros anos do século XVI. Um David com as feições suaves, como narra a Bíblia não seria pertinente. É portanto, presumível que Michelangelo desejou combinar o símbolo bíblico – David – com aquele mitológico – Hércules – que também era emblema de Florença. Hércules e David, ambos eram personificações tradicionais da Fortaleza como virtude.


Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

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