No artigo de hoje vamos conhecer uma das grandes obras do pintor Andrea Orcagna conservada na Galleria degli Uffizi em Florença: o Tríptico de São Mateus.

O Tríptico de São Mateus de Andrea Orcagna

A forma singular deste painel deve-se ao seu destino original: o pilar da igreja de Orsammichele em Florença, encomendada pela Arte del Cambio, a guilda dos banqueiros. Com sua estrutura convexa, com três painéis que compõem hexágono, foi realizada para envolver os três lados do pilar, narrando a vida de São Mateus, padroeiro da Arte del Cambio.

O apóstolo e evangelista Mateus, que antes da chamada de Cristo era cobrador de impostos e se chamava Levi, justamente por sua atividade de cobrador de impostos, foi escolhido para ser protetor de banqueiros, oficiais alfandegários, financistas, cambistas, contadores e cobradores de dívidas. As artes regiam a organização do trabalho em Florença na Idade Média e financiavam muitas obras de arte que depois mantinham e restauravam.

Os três painéis de Orsammichele foram encomendados a Andrea di Cione conhecido como l’Orcagna, pintor, escultor e arquiteto, dono de uma das mais famosas e prósperas oficinas da capital toscana após a peste de 1348. Os cônsules da arte confiaram a pintura ao mestre em 15 de julho de 1367 mas ele, que estava gravemente doente no ano seguinte – faleceu em 25 de agosto de 1368 – deixou a conclusão para seu irmão mais novo, Jacopo, que assumiu a direção de seu negócio, valendo-se de uma série de colaboradores que os críticos identificaram em bases estilísticas e batizadas com nomes convencionais. Para esta obra, é unanimemente citado o nome do chamado Mestre da Predela do Museu Ashmolean, que tira esse nome da Predela, preservada no museu homônimo de Oxford.

O painel central representa São Mateus com o Evangelho, caneta e tinteiro, vestido com um grande manto rosa forrado de vermelho e decorado com ouro sobre uma túnica azul. Ele está de pé sobre um tapete ricamente decorado, que apresenta motivos encontrados nos tecidos retratados em outras obras de Orcagna. Os dois painéis laterais retratam quatro episódios da vida do Santo, que devem ser lidos em sentidos opostos: à esquerda vai de baixo para cima e à direita vice-versa. Na base de cada painel, há uma descrição da cena relacionada.

Na parte superior: São Mateus acalma dois dragões. Embaixo: Vocacação de São Mateus

A partir da esquerda do visualizador, em latim medieval: QUOMODO. SANTUS. MATHEUS. MORTE DE. CHELONEO. ET. SECUTUS. LESTE. CRISTUM, (vocação de São Mateus); QUOMODO. MISERŨT. SUP. EUM. SANTUS. MATHEUS. DRACONES (São Mateus acalma os dois dragões de Vadabar), à direita, QUOMODO. SANTUS. MATHEUS. RESUSCITAVIT. UNUM. MORTUUM (São Mateus ressuscita o filho do rei Egipo) e QUOMODO. SANTUS. MATHEUS. FUIT. ACCISUS (Martírio de São Mateus). Sob a imagem do santo SANTUS. MATHEUS. APÓSTOLO. ET. EVANGELISTA, e no livro, o início de seu Evangelho.

Parte superior: São Mateus ressuscita o filho do rei Egipo. Embaixo: Martírio de São Mateus

Os episódios são narrados de forma sucinta com uma paleta de cores vivas e com grande atenção à arquitetura, todas muito imaginativas, provavelmente concebidas desta forma para marcar a distribuição das figuras no espaço.

Os painéis terminam em moldura linear e contêm uma espécie de edícula com arcos pontiagudos e moldura polilobada que emoldura a imagem do Santo e os dois registros de histórias laterais. No topo, nos trechos recortados acima da figura de Mateus, há dois pequenos medalhões com anjos que portam, respectivamente, o Evangelho e a palma do martírio, enquanto medalhões idênticos decoram os outros dois painéis preenchidos com moedas de ouro sobre fundo vermelho, símbolo da Arte del Cambio.

A obra chegou a Galleria degli Uffizi, onde ainda é conservada em 1902.


Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

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