Conheça os curiosos instrumentos astronômicos que foram colocados na fachada da igreja de Santa Maria Novella em Florença.

A fachada da Basílica de Santa Maria Novella é admirada todos os dias por milhares de turistas como uma apoteose da arquitetura renascentista de Leon Battista Alberti. No entanto, aqueles que admiram a igreja de um ponto de vista estético muitas vezes negligenciam um detalhe curioso: a fachada é adornada com uma esfera armilar, um furo gnomônico e um quadrante. Trata-se de instrumentos astronômicos implantados na época do Grão-Ducado de Cosimo I dos Medicis.

Santa Maria Novella

Ano de 1572. Um frade dominicano de Santa Maria Novella chamado Egnazio Danti, instala na fachada da igreja  três instrumentos astronômicos: esfera armilar, quadrante e furo gnomônico de uma merediana localizada no interior da igreja. Tais  intrumentos ainda hoje são visíveis na fachada de Santa Maria Novella.

Egnazio Danti, ilustre matemático, astrônomo e cosmógrafo usava a armilla e o quadrante para realizar seus estudos. Tais  estudos serão fundamentais quando Egnazio Danti for nomeado pelo Papa Gregório XIII para fazer parte da comissão para a reforma do Calendário Juliano.

A meridiana no interior de Santa Maria Novella

O furo gnomônico tinha a missão de iluminar no interior da igreja, no dia 25 de março o painel do pulpito com a representação da Anunciação.

O gnomon foi projetado em 1575, mas Danti não conseguiu completar o traçado da merediana no chão da igreja pois teve que deixar Florença por causa de conflitos com Ferdinando I dos Médicis, filho e sucessor de Cosimo I.  Inicialmente Danti projetou o primeiro furo gnomônico (21 metros), no vitral da rosácea, e no verão de 1575, na parte mais alta da fachada, Danti construiu o segundo furo gnomônico  e duas aberturas na abóbada interna da igreja para permitir que o sol passasse apenas durante os equinócios e o solstício de inverno.

Foto: Museu Galileo. A Meridiana no interior de Santa Maria Novella

Na foto acima o esquema da entrada do Sol a partir dos dois buracos gnomônicos: o da rosácea (abaixo) teria permitido a leitura do calendário ao longo do ano, enquanto o da parte superior da fachada (acima) apenas nos dias de equinócio e no solstício de inverno.

A esfera armilar na fachada de Santa Maria Novella

Uma esfera armilar (também conhecida como um astrolábio esférico) é um modelo da esfera celeste inventada por Eratóstenes em 255 aC. Danti instalou assim, no lado esquerdo da fachada projetada por Alberti uma Esfera Armilar equinocial feita de bronze constituída por dois círculos.  A  Esfera Armilar consente a determinação dos dias do solstício e do equinócio.

É composta de anéis chamados armila, geralmente de metal, cada um dos quais representa um dos círculos da esfera celestial. Um dos anéis é em posição vertical e o outro obliqua. Todos os dias, o sol ilumina o anel vertical de forma a formar uma sombra oval na fachada da igreja. No período da manhã a sombra é muito longa e vai diminuindo quando se aproxima as 12 horas para depois se alongar até o pôr do sol.

O outro anel também projeta a sua sombra na fachada da igreja, individualizando a viagem diurna do sol no equador celeste.  No dia do equinócio as duas sombras se reduzem em duas linhas a forma uma cruz perfeita. É esse o momento em qual o dia e a noite possuem a mesma duração.

O quadrante na fachada de Santa Maria Novella

No grande quadrante de mármore colocado na fachada de Santa Maria Novella é possível ver a data da sua projetação: 1572. A placa de mármore mede cerca de 152,5 cm. O quadrante consiste em um instrumento que é a quarta parte de um circulo e a sua função é a medição da altura (distância angular de um objeto) -principalmente dos astros – em relação o horizonte.

Calendário Juliano x Gregoriano

Instrumentos deste tipo foram decisivos para a reforma do calendário juliano, que era baseado na ideia que o ano solar  fosse constituído exatamente de 365 dias e seis horas.

A questão da contínua regressão do equinócio era debatida desdo do Concílio de Nicea ocorrido em 325, mas nunca tinha sido realmente resolvida. Durante o Concílio foi estabelecido que a Páscoa seria celebrada no domingo seguinte a primeira noite de lua cheia após o equinócio de primavera. Assim, determinar o dia do equinócio se transformou em um grande problema religioso.

Egnazio Danti  e os frades de Santa  Maria Novella ficaram surpresos quando a Esfera Armilar de Santa Maria Novella determinou que o equinócio cairia no dia 1º de abril e não no dia 21 de março.

Isto aconteceu porque ainda era em vigor o calendário Juliano, criado por Júlio César em 46 aC: um calendário muito preciso para sua época e que já previa o “ano bissexto”, mas que sofreu diversas modificações e que com o passar do tempo acumulou em média um atraso de 11 minutos por ano, totalizando um atraso de mais de 10 dias no calendário.

Assim, a partir dos estudos do Cristoforo Clavio, do astronomo Giuseppe Scala e do frade Ignazio Dante, utilizando também os estudos feitos por Niccolò Copernico publicados anos antes (Revolutionibus orbium coelestium libri sex), foi possível determinar com precisão a duração do ano solar de 365 dias, 06 horas, 09 minutos e 10 segundos.

O Calendário Gregoriano

Danti, com outros estudiosos, propôs ao papa Gregório XIII uma reforma do calendário, que foi finalmente aprovado em 1582 e que ainda está em vigor: o calendário gregoriano. Para aplicá-lo, adormecemos na noite de 4 de outubro e, de manhã, acordamos no dia 15! As pessoas envelheceram 11 dias, de um dia para outro.

O calendário gregoriano prevê que não são bissextos  os anos múltiplos de 100 exceto aqueles divisíveis por 400. Os 1800, 1900 e 2100 não foram e não serão anos bissextos, mas 2000 foi. Se você conhece alguém que nasceu no dia 29 de fevereiro de 2000, diga a eles que nasceram em um dia especial, que só aparece no calendário uma vez a cada 400 anos!

Quem foi Egnazio Danti?

Bartolomeo Passarotti, Ritratto di Egnazio Danti, 1576

O frade dominicano Egnazio Danti (Perugia de 1536 – Alatri, 1586), nascido Carlo Pellegrino, foi um cientista, astrônomo, engenheiro e cartógrafo, entre os homens mais versáteis e brilhantes da ciência do seu tempo. De 1562-1576 é matemático e cosmógrafo da corte do Grão-Duque Cosimo I, para o qual fabrica os mapas geográficos das portas dos armários da Sala dos Mapas do Palazzo Vecchio.

Em Florença, Danti também revela toda  a sua habilitadade de fabricante de instrumentos científicos, criando uma bela astrolábio de latão e um par de instrumentos astronômicos colocados na fachada da igreja de Santa Maria Novella. Além dos instrumentos astronômicos da fachada de Santa Maria Novella, Danti construiu em torno de 1570 um grande astrolabio, hoje conservado no Museu Galileo.

Danti também desempenha um papel importante na evolução do cientista italiano do século XVI, tanto teórico quanto técnico-prático. Em Florença Danti publicou duas obras importantes: a tradução em língua italiana da Prospectiva de Euclides (1573) e o Dell’uso et fabbrica dell’astrolabio  (1578), um dos primeiros exemplos de manual técnico dedicado a um instrumento científico em língua italiana.

Cosimo I morre no mês de abril de 1574 e seu filho Francesco I assume o governo da Toscana. No final do verão de 1575, Danti entre em conflito com Francesco I e infelizmente é convidado a deixar a Toscana em 24 horas.  Assim Danti vai para Bologna onde continua os seus estudos.

Achou este artigo interessante?
Compartilhe em sua rede de contatos do Twitter, no seu mural do Facebook ou simplesmente pressione “+1” para sugerir esse resultado nas pesquisas do Google. Compartilhar o conteúdo que você considera relevante ajuda esse blog a crescer. Grazie!

Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

0 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *