Conhecer Florença através de seus palácios, monumentos e museus é certamente uma maneira eficaz de descobrir o encanto da cidade dos Médici. Visitar os cafés históricos da cidade, no entanto, é equivalente a roubar parte de sua alma e da sua história. Assim, você descobrirá que a sorte de algumas das ruas e praças mais famosas de Florença está ligada a esses importantes pontos de encontro.

Florença é um importante ponto de referência para a história dos cafés europeus entre a segunda metade do século XIX e a primeira do século XX. Alguns cafés representavam centros de divulgação de ideias inovadoras, principalmente no campo artístico, literário e político. Nesse sentido, deve-se lembrar que o café era um ponto de encontro público e reuniões da aristocracia, dos artistas e da burguesia.

O café (bebida) foi introduzido na Europa por volta do século XVII graças as relações comerciais de Veneza com o oriente, principalmente com a Turquia. Assim, a Áustria, França e Itália foram os primeiros na Europa a degustarem o “néctar dos árabes”.

Na Itália foi Veneza, no século XVIII, a primeira cidade a abrigar um café (com o Florian, inaugurado em 1720); depois Florença com o Caffé Gilli (1733). Em 1760 nasceu em Roma o Caffé Greco e em Padova o Caffé Pedrocchi (1770).

Os primeiros cafés de Florença

Os primeiros cafés históricos de Florença apareceram na cidade nos anos trinta do século XVIII, quando a cidade ainda conservava um aspecto medieval com ruas estreitas e imponentes torres. Quase todos os cafés eram concentrados nas áreas entre a Piazza del Duomo e a Piazza della Signoria. Não os chame de bares: os cafés históricos de Florença, entre xícaras, mesas e balcões, ainda mantêm o charme e a atmosfera de épocas passadas.

É o caso da Piazza della Repubblica, uma das praças mais bonitas de Florença. Ao contrário do que se possa pensar, sua fama não vem somente da arquitetura e do seu famoso arco, mas dos cafés literários que a compõem: o café Le Giubbe Rosse, o café Gilli e o café Paszkowski. Todos os três, em graus variados, envolvidos em um dos principais fenômenos culturais do século XX.

O Caffé Doney

Palazzo Altoviti Sangalletti ex Caffé Doney

Na via Tornabuoni, no andar térreo do Palazzo Altoviti Sangalletti, foi inaugurado em 31 de maio de 1827 o Gran Caffè Doney, o primeiro café no verdadeiro sentido da palavra em Florença, inspirado nos cafés parisienses e vienenses. O café recebeu o nome do proprietário, o suiço Gaspare Doney. Infelizmente, o Caffé Doney foi fechado em 1986.

O Caffé Doney era popularmente conhecido como Delle Colonne, em virtude dos quatro pilares que sustentavam o teto da grande sala principal, pintado de branco com ornamentos dourados e cadeiras revestidas de veludo vermelho.

O Doney também servia aos clientes marrons glacés, bombons, chocolates, sorvetes e granitas. As senhoras paravam na frente do café com suas carruagens para tomar sorvete após a caminhada diária no Parque delle Cascine (que serpenteia ao longo da margem direita do Arno). Este

Café elegante era frequentado principalmente pela aristocracia, pela burguesia, pessoas do mundo da política e membros da Jockey-Club que ficava no prédio em frente ao café.

Além disso, como lembra o cronista Ugo Pesci, o café era frequentado pelos vendedores ambulantes a caminho do mercado, que ali paravam para se refrescarem com um bom café com leite e uma sèmelle (pão macio) com manteiga. Além disso, o café era bem conhecido como sede para reuniões políticas e literárias.

O Caffé Michelangiolo

Em 1848 foi fundado o Caffé Michelangiolo na via Larga, (hoje, via Cavour). Este café pode ser considerado o primeiro verdadeiro café histórico artístico da cidade. Localizado em uma zona estratégica, próximo a Biblioteca Marucelliana, aos ateliês de diversos artistas e a Accademia de Belas Artes. Assim, o Café começou a ser frequentado por jovens artistas.

O movimento Macchiaioli ganhou vida nas salas do Caffé Michelangiolo na década de 1850, com o crítico Adriano Cecioni e o artista Telemaco Signorini, entre outros. Então ele começou a ser conhecido também como o Caffé Macchiaioli. Hoje o café hospeda o Museu Leonardo da Vinci.

Caffè Giacosa na via Tornabuoni

Em 1865, Florença, capital da Itália, experimentou uma nova fase de renovação: o número de cafés da cidade aumentou de 19 para 107 no espaço de cinquenta anos, de 1815 a 1865. Nesse período nasceu o Caffè Giacosa, um lugar com confeitaria e sala de café no número 9 da via Tornabuoni, em frente ao Palazzo Strozzi.

Em 2001 foi englobado pela Butique Cavalli, transformando-se em Caffé Giacosa by Roberto Cavalli. O Caffé continuou assim a oferecer um bom Negroni, café 100% arábico e doces da tradição toscana. Em 2017, o café foi fechado definitivamente. Hoje, é sede de uma butique de Armani.

O Caffé Rivoire

A transferência da capital para Roma e a crise econômica da cidade não impediram que Enrico Rivoire abrisse em Florença na Piazza della Signoria no ano de 1872, não um simples café, mas uma verdadeira “fábrica de chocolate a vapor”. O Rivoire ainda está em funcionamento graças a sua espetacular vista para o Palazzo Vecchio e a habilidade de seus mestres chocolateiros.

No Caffè Rivoire, os florentinos ainda compram cascas de limão com cobertura de chocolate, uma especialidade da casa. O terraço ao ar livre é um local de caça para turistas e selfies, mas Rivoire continua mantendo seu charme intacto.

Le Giubbe Rosse

Fundado no século XIX pelos irmãos austriacos Reininghaus, o café Le Giubbe Rosse, leva por causa do nome dos uniformes dos garçons que usavam jaquetas vermelhas e aventais brancos. Inicialmente era frequentado principalmente pelos austríacos e suíços. O local servia, café, sorvetes, vinhos, licores e principalmente cerveja. Na verdade, era um café-cervejaria.

No início do século XX, era o destino favorito de muitos intelectuais da época. No entanto, após a publicação do Manifesto Futurista, em 1909, tornou-se o lar permanente dos futuristas florentinos e, em particular, de Tommaso Filippo Marinetti, Umberto Boccioni e Carlo Carrà, transformando-se posteriormente em um local de encontro de escritores e artistas italianos e estrangeiros.

No período entre as duas guerras mundiais, abrigou a famosa revista “Solaria”, que revelou escritores italianos como Joyce, Kafka e Virginia Woolf.

Suas paredes ainda contam a história do café. Elas são decoradas com pinturas futuristas e neo-futuristas em um ambiente elegante, mas informal, onde você pode saborear pratos típicos da cozinha florentina. Há também muitas fotos, desenhos e lembranças dos seus famosos visitantes. Mas são tempos muito mais difíceis: em 2018 o café Giubbe Rosse acaba em leilão por falência. Assim ele foi comprado pelo grupo Scudieri (dono de outro café histórico em Florença com vista para o Batistério de Florença). A previsão era reabrir em 2020 após as obras de restruturação, mas com a pandemia, acredito que teremos que esperar mais um pouco.

Caffé Paszkowski

O Caffè Paszkowski nasceu em 1846 como uma cervejaria, mas logo se tornou um Caffé Concerto, onde se apresentava a famosa banda Paszkowski. A cafeteria-cervejaria logo se tornou um ponto de encontro dos protagonistas da literatura e arte do século XX; no primeiro período do pós-guerra, sua vocação musical se voltou decisivamente para o cabaré.

Em 1979, o café foi comprado pela família Valenza, que ainda hoje é a proprietária do local. Os Valenzas decidiram relançar não apenas a cafeteria, mas também, a restauração sem nunca esquecer a tradição do café Concerto.

Ainda hoje a antiga tradição musical é bem representada pelos artistas que se apresentam por lá. Também são realizadas conferências e desfiles de moda, enquanto seus salões de chá são obrigatórios para visitantes estrangeiros que desejam fazer uma pausa. Desde 1991, foi declarado monumento nacional, fazendo parte assim, dos locais históricos italianos.

É nesses anos que o papel cultural do café é enfatizado por sediar os eventos de “La Versiliana d’inverno”. São encontros realizados no período da tarde com personalidades de destaque do mundo da cultura, da política e do entretenimento, com o objetivo de reviver a ideia do café literário que o caracterizou no início dos anos de 1900. Entre os convidados, destacamos: Piero Angela, Roberto Benigni, Franco Maria Ricci, Cecchi Gori, Carlo Verdone e Francesco Nuti. Outro elemento de atração para o público e para os jovens artistas em busca de sucesso era a fórmula do Caffè Concerto, que seguia o fenômeno do café-chantant que nasceu em Paris no século XVIII.

O “Salotto Fiorentino”, é extremamente refinado e com atenção aos detalhes, ainda se apresenta ao público como um local com uma forte marca artística e histórica, caracterizado por pisos de mosaico, salas decoradas em estilo Art Déco e paredes cobertas com madeira preciosa.

Café Gilli

O café nasceu em 1733, de propriedade suíça, em uma Florença do tempo dos Medicis. Inaugurado na Via de’ Calzaiuoli, se transferiu na metade do século XIX para Via degli Speziale, e finalmente terminou sua peregrinação no início do século passado, no atual endereço na centralissima Piazza della Repubblica.

No início do século XX, o Caffè Gilli também se tornou um elegante café literário, frequentado por artistas e intelectuais como Marinetti e Ardengo Soffici. Hoje, o local é o único representante do estilo belle époque na cidade florentina, com paredes de cor de marfim, lustres de Murano, tetos decorados com afrescos e arcos que confirmam o bom gosto e a hospitalidade dos florentinos.

Muitos testemunhos fotográficos de artistas internacionais imortalizaram as salas do Caffé Gilli. Mas é do lado de fora do Caffè Gilli que foi tirada a famosa fotografia de Ruth Orkin, intitulada American Girl in Italy datado de 1951. A foto, que mostra a americana Ninalee Craig, 23 anos, caminhando na calçada em frente ao bar, cercada pelos olhares de admiração dos jovens florentinos apoiados nas paredes do café ou em vespas, tornou-se ao longo do tempo um ícone bem conhecido da fotografia.

No Caffé Gilli é servido o capuccino mais cremoso da cidade, além claro, de doces maravilhosos que tiram qualquer um da dieta.


Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

4 comentários

Ana Baía · setembro 18, 2020 às 11:51 pm

Muito bom. Ganhei um pouco mais de conhecimento sobre essa maravilhosa cidade.

    Cristiane de Oliveira · setembro 19, 2020 às 12:57 pm

    Obrigada Querida! Um grande beijo pra vc!

    Ilma · setembro 19, 2020 às 4:07 pm

    Que texto maravilhoso!! Amo café (bebida) e os caffès cconhecidoom.história. Destes, creio só ter o Gilli. Foi uma linda recordação. Grazie.

      Cristiane de Oliveira · setembro 21, 2020 às 5:42 pm

      Obrigada Ilma! Tenho certeza que você conhece os outros cafés citados. São todos localizados nos pontos centrais de Florença. Um grande abraço

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