No artigo de hoje vamos conhecer um pouco da história da ponte mais amada e fotografada de Florença: a Ponte Vecchio. Conhecida em todo o mundo com sua história e suas ourivesarias, a Ponte Vecchio é um dos lugares mais simbólicos de Florença.

História da Ponte Vecchio

Aparência hipotética da Ponte Vecchio no século XV, óleo de Fabio Borbottoni
Aparência hipotética da Ponte Vecchio no século XV, óleo de Fabio Borbottoni. Fonte: Wikipédia

Mais ou menos no local onde se encontra a atual ponte, no ponto mais estreito do rio Arno, existia uma ponte romana, que remonta a meados do século I aC. (hipótese confirmada pela descoberta nas proximidades, de duas poderosas fundações de “calcestruzzo”, provavelmente de época romana).

Graças à expansão e consolidação na época do imperador Adriano, essa primeira ponte durou cerca de quatro séculos. Não conhecemos os detalhes e os eventos das pontes subsequentes, mas sabemos que foi construída uma nova ponte e que ela foi varrida em outubro de 1177 pela fúria do Arno.

Ponte Vecchio hoje
Ponte Vecchio hoje

As obras de reconstrução continuaram por um longo tempo, principalmente devido aos tumultuosos eventos políticos da época. Finalmente, em 1294 uma ponte de alvenaria de cinco arcos foi construída, com dezesseis braccia de largura (cerca de nove metros), aproximadamente metade da atual; a passagem ficou ainda mais restrita após a construção de algumas oficinas em madeira, que a República Florentina alugou para recuperar os custos de construção.

Essa ponte deve ter sido bem diferente da atual, tanto pelos tipos das lojinhas que eram pequenas casas de madeira, quanto pela paisagem circundante do rio que era marcada por numerosos moinhos e ilhotas. A ponte foi chamada de ‘Vecchio’ (Velha) a partir de 1218, para distingui-la do ‘Nuovo Ponte’, em Carraia, que estava em construção.

Esta ponte sobreviveu quase incólume as várias inundações e incêndios (1222 e 1322) até que em 4 de novembro de 1333, quando, juntamente com a ‘Nuovo Ponte’ e a ponte Santa Trìnita, foi destruída pelas águas do Arno. Provavelmente foi nesta ocasião que a antiga estátua dedicada a Marte (o protetor pagão original da cidade) que adornava a ponte, foi perdida.

As destruições da ponte durante as mais violentas cheias do Arno não são devidas somente pela fúria das águas, mas principalmente pelos troncos de árvores, embarcações que com a força do rio eram atiradas como armas mortíferas na estrutura da ponte.

A atual Ponte Vecchio

Ponte Vecchio, Florença
Ponte Vecchio, Florença

Apesar das frequentes guerras e das consequentes dificuldades financeiras, a ponte foi concluída em 1345 e sua estrutura é substancialmente a mesma que ainda admiramos hoje: três arcos, 32 braccia de largura (cerca de 18 metros) e uma série de lojas de ambos os lados. A realização desta esplêndida ponte é atribuída a duas pessoas: a Taddeo Gaddi, aluno de Giotto (segundo Giorgio Vasari), ou ainda a Neri di Fioravante que era arquiteto da República Florentina.

Ponte Vecchio
Ponte Vecchio

Diferenciando-se claramente das típicas pontes medievais, que tradicionalmente têm arcos redondos e uma inclinação íngreme na superfície da estrada, a Ponte Vecchio foi realizada com três arcos inferiores, apoiados em apenas dois pilares, facilitando assim, o escoamento das águas do Arno nas ocasiões das cheias.

Nos cantos do começo da ponte, havia quatro torres, verdadeiras sentinelas de serviço de guarda, das quais saíam dois pórticos cobertos (um de cada lado da ponte) realizados em pedra forte. Com o passar do tempo, os pórticos foram cobertos, dando origem as lojas que conhecemos hoje. Acredita-se que as lojinhas eram do mesmo tamanho e fossem montadas em blocos lineares. No centro, existia um largo, uma pequena praça, como ainda podemos observar hoje.

O Mercado da carne na Ponte Vecchio

Em 1442, as autoridades da cidade, afim de resguardar a saúde pública, impõem que os açougueiros sejam transferidos para a Ponte Vecchio. Assim, as lojas foram concedidas para uso da Arte dei Beccai (uma das catorze artes menores que englobavam os açougueiros, peixeiros, etc).

A nova norma mirava isolar os palácios e as habitações do centro histórico dos odores desagradáveis e das marcas que os açougueiros deixavam pelas ruas da cidade, até chegar ao rio Arno, onde eles jogavam os restos de carnes e ossos. Colocando os açougueiros diretamente na ponte, eliminaria esse trajeto. A partir deste momento, a ponte se transformou em um verdadeiro mercado da carne.

O Corredor Vasari

Ponte Vecchio e o Corredor Vasari.
Ponte Vecchio e o Corredor Vasari.

Cosimo I de ‘Medici, por ocasião do casamento de seu filho Francesco I com a arquiduquesa da Áustria Giovanna de Habsburg, encarregou Giorgio Vasari de realizar uma conexão elevada, o famoso famoso Corredor Vasari entre o Palazzo VecchioUffizi e a nova residência grão-ducal do Palazzo Pitti.

O corredor inicia no Palazzo Vecchio (unido aos Uffizi graças à passagem aérea da via della Ninna), chega à Ponte Vecchio sobrepondo suas lojas, contorna a torre Mannelli – uma família que se opôs à expropriação de suas propriedades – e, continuando pela via Guicciardini, chega ao jardim Boboli e ao Palazzo Pitti.

As obras do Corrdor Vasariano foram realizadas por Vasari em apenas cinco meses, terminaram em 1565, permitindo assim que a corte grão-ducal se movesse livremente de uma residência para outra, sem correr riscos e em total privacidade.

Joalherias na Ponte Vecchio
Joalherias na Ponte Vecchio

Em 1593, o Grão-Duque Ferdinando I, irmão de Francesco I, considerou apropriado garantir uma melhor decoração à Ponte Vecchio. A presença de um mercado, com seus cheiros e ruídos, não era adequada para um “local muito frequentado por cavalheiros e estrangeiros”; para esse fim, solicitou que os capitães da Parte Guelfa removessem da ponte aqueles que exercitavam “artes vis”, para que ela se tornasse o lugar de todas as lojas de ourivesaria, joalheria e prata da cidade.

Assim, os profissionais do mercado da carne foram transferidos para a Praça do Mercado, atual Piazza della Reppublica, aquela onde hoje tem o carrossel. A partir desse momento, a Ponte Vecchio se tornou o espaço comercial mais famoso do mundo, dedicado não apenas à venda, mas também à produção de joalheria e ourivesaria.

A concentração de grande mercadorias de luxo levou os proprietários a embelezar as lojas e expandi-las com a adição dos fundos projetando-se no rio, criando, já no século XVII, uma situação muito semelhante à atual.

O Busto de Benvenuto Cellini na Ponte Vecchio.
O Busto de Benvenuto Cellini na Ponte Vecchio.

Como mencionado, no centro da ponte, as construções das lojas foram interrompidas para formar duas vistas esplêndidas do rio: de um lado, vemos o Corredor Vasari e do outro o monumento de bronze dedicado a Benvenuto Cellini, o escultor do Perseu com a cabeça de Medusa na Piazza della Signoria. O busto de Cellini, realizado por Raffaello Romanelli foi inaugurado em 3 de Novembro de 1900, ocasião no IV centenário do nascimento do famoso escultor e ourives.

Relógio solar, Ponte Vecchio, Florença.
Relógio solar, Ponte Vecchio, Florença.

Perto do monumento Cellini, no canto superior direito, no batente de uma loja, há um objeto singular desgastado pelo tempo: um relógio solar realizado em mármore.

A segunda guerra mundial

Ponte Vecchio na segunda guerra mundial.
Ponte Vecchio na segunda guerra mundial.

Durante a Segunda Guerra Mundial, na noite de 4 de agosto de 1944, apenas a Ponte Vecchio permaneceu em pé das seis pontes da cidade (Ponte San Niccolò, Ponte al Grazie, Ponte Vecchio, Ponte Santa Trìnita, Ponte alla Carraia e Ponte alla Vittoria). No entanto, os pontos de acesso à ponte foram fortemente danificados (as áreas de Borgo San Jacopo, via Guicciardini, Por Santa Maria), sendo reconstruídos no período pós-guerra.

Posteriormente, em 4 de Novembro de 1966, no dia do triste aniversário da enchente de 1333 (uma coincidência verdadeiramente incrível!), Uma inundação muito séria atingiu a cidade e a ponte que, apesar de sofrer sérios danos, felizmente não foi comprometida em sua estrutura.


Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

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