No decorrer dos séculos XII e III, o esplendor renovado da vida urbana e do potencial econômico atraem à Florença muitas pessoas da província, nobres e plebeus. Dentre aqueles que estão a tentar a sorte na cidade estão os Medici, uma família, praticamente desconhecida, proveniente do Mugello, uma região distante de Florença, cerca de 40 km.

Giovanni di Bicci, afresco Palazzo Vecchio

Os Medici mudam-se para Florença no final do século XIII, abandonando a agricultura para se dedicarem às atividades econômicas. Somente no século seguinte, teremos notícias da participação da família na vida política da cidade, como conselheiro ou qualquer outro cargo administrativo.

Mas qual é a origem do nome Medici? De acordo com uma lenda eles se chamavam assim porque um antepassado tinha sido um médico e as seis esferas vermelhas no fundo dourado do brasão (o número de esfera varia de acordo com a geração), seriam comprimidos. O fato é que não existe nenhum documento histórico que comprove a existência de um médico na família.

Brasão da Família Medici – Palazzo Vecchio

Para alguns estudiosos, as esferas do brasão dos Medici representariam “bezanti”, pesos de origens bizantinas (daí o nome) que os comerciantes e banqueiros medievais utilizavam para controlarem as moedas. O fato é que existe mil e uma lendas sobre a origem do brasão do Medici, mas não existem documentos que confirmem nenhuma das hipóteses.

No século XIV os Medici aparecem divididos em dois ramos, os quais Vieri e Averardo são os dois chefes da família. De Averardo, conhecido como Bicci, nascerá Giovanni de’Medici em 1360, o qual foi o fundador de uma das maiores fortunas da família: o Banco Medici.

No início de 1400 a família Medici pertencia a média burguesia florentina. Os Medici já eram uma família de banqueiros e muitos deles possuíam uma riqueza considerável. Muitos dos antepassados de Giovanni já tinham exercidos cargos públicos na cidade, e o seu bisavô Averardo, que havia dato início a prosperidade da família com operações mercantis, foi também gonfaloneiro em 1314. O seu avô Salvestro foi um dos convidados da República Florentina para concluir o Tratado com Veneza em 1336 e os dois primos do seu pai, também foram gonfaloneiros nos anos de 1349 e 1354.

Giovanni di Bici, fundador do Banco Medici.

Giovanni esposou Piccarda Bueri, que lhe trouxe uma grande soma como dote, o que lhe ajudou muito nos negócios. Em 1402, ele começou a vida política como Prior, ou seja, fazia parte do governo de Florença, cargo o qual foi reeleito em 1408 e 1411. Giovanni foi um homem politicamente prudente, não gostava muito de falar de si e nem de mostrar muita riqueza. Aceitou os cargos políticos como se fossem um dever como cidadão do bem.

Giovanni di Bicci juntamente com sua esposa Piccarda Bueri e os dois filhos Cosimo e Lorenzo, que em 1400 havia respectivamente 11 e 5 anos de idade, moravam inicialmente em uma velha casa na Via Larga, a mesma rua onde mais tarde o seu filho primogênito irá construir o Palazzo Medici. Porém a sua residência não é aquela que em Florença era considerada “de gente rica”.

Giovanni preferia viver com simplicidade: estava construindo a sua riqueza e seu poder econômico com muita cautela, evitando causar invejas. Conhecia muito bem o mundo florentino, sabia se relacionar com os seus rivais comerciais. Será admirado pela habilidade que mostrava ao saber gestir os seus negócios.

Mais tarde ele se mudou para uma casa na Piazza Duomo, onde da janela, muito provavelmente deve haver visto a cúpula da catedral elevar-se lentamente.

Ele nunca deixou de ajudar os mais necessitados. Gastou em beneficência somas enormes, tentando mostrar-se como alguém que trabalha para fazer justiça ao mais humilde dos seus concidadãos. Dessa forma, o povo começou a considerá-lo quase como um campeão, que de bom grado descia em campo pela defesa dos mais pobres. E assim, Giovanni não conseguiu a simpatia dos nobres, que o acusaram de usar essa política para conseguir consenso popular, para usar no momento ideal.

O ano de 1401 foi crucial na história de Florença, principalmente por causa da enésima epidemia de peste, que no ano anterior tinha exterminado cerca de 12 mil florentinos. Assim, Florença resolveu presentear uma das igrejas mais antigas da cidade, o Batistério de San Giovanni, com uma nova porta de bronze. Foi feito um concurso internacional e o nosso Giovanni, sendo um dos homens mais importantes da cidade, foi convidado para ser um dos juízes que decidiram quem foi o grande vencedor.

Em 1413 Giovanni conseguiu se tornar o banqueiro privilegiado das contas papais, graças à sua amizade com o antipapa João XXIII (papa da facção “Pisana” durante o Cisma Ocidental, eleito em 1410). Mais tarde, o antipapa João XXIII foi deposto e aprisionado. Giovanni di Bicci e Niccoló da Uzzano, chefe do partido dos nobres, conseguiram, após longos e repetidos esforços, a liberação do Papa deposto através do pagamento de 38.000 mil ducados, pagos inteiramente por Giovanni di Bicci.

Monumento funerario do Antipapa João XXIII, Batistério de San Giovanni

O Papa, após a sua liberação, doente e despojado de toda a sua riqueza, recebeu asilo em Florença na casa dos Medici. Após a morte do Papa, ocorrida no ano seguinte, os Medici realizaram um belo monumento fúnebre, realizado por Michelozzo e Donatello que podemos ainda hoje admirar no Batistério de San Giovanni.

Em 1417, uma nova peste assola a cidade – morreram cerca de 16 mil florentinos. Mais uma vez Giovanni fez o que pôde para para socorrer os pobres, mas também aliviar o sofrimento dos mais ricos.

Em 1419, Giovanni, como Prior é ocupado com a realização do Spedale degli Innocenti. O Spedale era uma instituição de caridade, que visava a dar assistências as crianças órfãs. Foi Giovanni quem ofereceu a Brunelleschi, que tinha acabado de retornar de Roma, o projeto da construção. Provavelmente foi o primeiro trabalho de Brunelleschi como arquiteto. Hoje, o Spedale é um dos museus mais interessantes da cidade.

Em 1421, Giovanni recebeu a maior honra que a sua Pátria poderia lhe oferecer: o cargo de Gonfalone da República Florentina.

Giovanni di Bicci, encarregou Brunelleschi em 1425 a realização de um das grandes obras-primas da arquitetura Renascentista: a Sacristia Velha da Basílica de San Lorenzo, hoje famosa porque contém os túmulos dos Medici. Esta igreja, era uma das mais antigas da Itália, foi consagrada por Santo Ambrósio, bispo de Milão em 393 e estava praticamente em ruínas. Giovanni se empenhou em reconstruí-la, dedicando uma boa parte da riqueza da família, para que ela se transformasse na Igreja dos Medici.

Giovanni, em 1426, foi um dos principais apoiadores da instituição de um cadastro da cidade, que pela primeira vez tributou os florentinos não com os vários impostos sobre o consumo, que afetavam os ricos e os pobres na mesma medida, mas com os impostos calibrados sobre receitas, rendas e posses de famílias individuais. A sua autoridade no governo da cidade era tanta, que Giovanni, apesar dos protestos dos nobres, conseguiu aprovar a nova forma de tributação dos impostos. O que mais nos deixa surpresos, é que após Palla Strozzi, que era o homem mais rico da cidade, foi Giovanni foi o segundo mais taxado pela nova lei tributária.

Giovanni morreu em Fevereiro de 1429. Teve um funeral digno de um príncipe como era o desejo dos filhos Cosimo e Lorenzo. Giovanni di Bicci, assistiu os primeiros movimentos dos quais Ghiberti, Brunelleschi, Donatello, Masaccio foram pioneiros. Assim, a sua vida é muito ligada ao florescer da arte renascentista entre os anos de 1400 e 1428.

Tumba Giovanni di Bicci e Piccarda Bueri, Sacristia Velha, San Lorenzo

Giovanni repousa juntamente com a sua esposa Piccarda Bueri, que faleceu 4 anos depois, na Sacristia Velha de San Lorenzo, única parte da igreja reconstruída que tinha sido terminada na data da sua morte. A belíssima tumba, ricamente decorada com figuras, e guirlandas de flores foi colocada no centro da sacristia, coberta por uma grande mesa de mármore. Esse tipo de tumba isolada, não era muito comum na Itália da época.

Maquiavel sentenciou o seu papel político da seguinte forma: «Nunca pediu honras e as teve todas; ele morreu muito rico em tesouros, mas mais ainda, de boa fama e benevolência “.

Giovanni di Bicci e seus dois filhos

Os dois filhos de Giovanni estão para separar-se para formar os dois ramos da família: Cosimo guiará aquele chamado como Principal – o ramo que herdará as fortunas comerciais e políticas dos Medici. Lorenzo, chamado depois de O Velho, o ramo secundário, que chegará ao poder quando Maria Salviati, do ramo principal, esposará Giovanni dalle Bande Nere do ramo popolano. Desta união nascerá aquele Cosimo que será o primeiro Grão-Duque da Toscana.

Piccarda Bueri

Pouco sabemos sobre a esposa de Giovanni di Bicci. A família Bueri era de origem florentina, mas

tinha se transferido para o Veneto na metade do século XIV, assim Piccarda, filha de Edoardo Bueri, nasceu em Verona.

Sabemos que Piccarda se encontra em Florença juntamente com sua mãe em 1386, ano do matrimônio com Giovanni. Não sabemos se foi uma união por amor, mas não seria uma surpresa se Giovanni teria se apaixonado por ela, pois segundo as crônicas, ela era belíssima e inteligente, qualidades necessárias para está ao lado deste Medici que já era muito famoso naquela época.

Após o matrimônio o casal vai ver em uma casa próxima ao Duomo, na atual via Ricasoli. Piccarda se dedicou, como era comum as mulheres naquele tempo, a educação dos seus filhos, além de dar uma mão ao marido nos negócios do banco, pois Giovanni viajava muito por motivo de trabalho. Ela não se interessava muito pelos assuntos políticos da cidade.

Piccarda morre em Florença no dia 19 de abril de 1433, 4 anos após o marido. Os dois repousam na Sacristia Velha, em San Lorenzo.


Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

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