Finalmente o  Codex Leiscester de Da Vinci, de propriedade de Bill Gates retorna a Florença. Trata-se da exposição L’acqua microscopio della natura. Il Codice Leicester di Leonardo da Vinci que será exibida na Gallerie degli Uffizi em Florença a partir do dia 30 de outubro de 2018 á 20 de janeiro de 2019.

O Codex Leicester de Leonardo da Vinci 

O Codex Leicester de Leonardo da Vinci será exibido em Florença como uma prévia das celebrações em homenagem a Leonardo que ocorrerão em 2019, por ocasião do 500º aniversário da morte do artista que foi uma das figuras ícone da história da humanidade.

Um pouco de história

Será a segunda viagem do Codex Leicester para Florença. Em 1982 o Codex  (quando ainda era chamado de Codex Hammer) foi exibido em 1982 na Sala dei Gigli do Palazzo Vecchio, obtendo um sucesso extraordinário com o público. Foram mais de 400.000 visitantes em pouco mais de três meses.

Entre os códigos dispersos após a morte de Francesco Melzi, um dos alunos favoritos de Leonardo, as folhas do Codex Leicester acabaram nas mãos do filósofo alquimista Giovanni Della Porta. Em seguida o Codex foi parar nas mãos de Giuseppe Ghezzi, um aluno de Pietro da Cortona.

Em 1717 Ghezzi vendeu o Codex para Thomas Coke (1697-1759), primeiro conde de Leicester, um membro do Parlamento Norfolk. O Conde de Leicester trouxe o Codex para Florença e mandou fazer uma cópia. Dessa cópia nasceram outras cópias. Atualmente temos pelo menos sete cópias do Codex Leicester  espalhadas pelo mundo.

No século XX, o código acabou nas mãos do bilionário americano do petróleo  Armand Hammer.  Por esse motivo, o código ficou conhecido como Codex Hammer até que em 1994, foi comprado pelo fundador da Microsoft, reasumindo assim, o antigo nome, Codex Leicester.

O livro mais caro do mundo

Em 1994, quando o  Codex Leicester  foi comprado por Bill Gates por US $ 30,8 milhões, parecia uma cifra insuperável. Hoje sabemos que estas folhas (36 dobradas em duas partes e escritas em 72 lados, 29 x 22 cm) custam menos de um décimo do «Salvator mundi».  Trata-se de uma obra atribuida a Leonardo que foi leiloado em Nova York ano passado por 450 milhões de dólares.  Bill Gates fez um grande negócio!

 No Uffizi: L’acqua microscopio della natura. Il Codice Leicester di Leonardo da Vinci 

O tema central da exposição é a água, um elemento que fascina Leonardo. O artista realiza investigações extraordinarias para entender a sua natureza, explorar sua energia e assim controlar seus efeitos potencialmente ruinosos. O Codex Leicester também contém reflexões inovadoras sobre outros temas: sobretudo sobre a constituição material da Lua, além da natureza de sua luminosidade, e a história do planeta Terra, em suas contínuas e radicais transformações.

A organização do seu conteúdo faz do Codex Leiscester quase um Tratado Científico – graças à grande capacidade de observação e compreensão dos fenômenos por parte do artista.

Leonardo escreveu o Código entre 1504 e 1508. Foi o período em que o artista realizou estudos de anatomia no Hospital de Santa Maria Nuova e participou da falida pintura mural da “Batalha de Anghiari” no Palazzo Vecchio. Na mesma época Leonardo fez estudos para tentar fazer o homem voar e estudou soluções futuristas para tornar o rio Arno navegável de Florença até o mar. O Codex Leiscester será exposto na sala Magliabechiana do Uffizi.

A leitura do Codex Leicester de Leonardo da Vinci não é muito fácil, pois contém muitas informações, mas poucos desenhos, ou melhor esboços de desenhos. Visualmente, existem outros códigos mais interessantes, como o Atlântico por exemplo, escrito por Leonardo.  Mas se falarmos de conteúdo, o Codex Leicester é importantíssimo porque contém idéias de teor científico.

Leonardo dedica esses estudos a água, pois para ele, esse elemento é a origem da vida e do mundo. É a água que dá formas as coisas, inclusive à Terra. Na visão de Leonardo, a água modela a Terra, que não é um corpo sólido, imutável. A Terra não é criada em um único momento, como diz a Gênesis, mas sim através do tempo. Durante esse tempo, a Terra vai se transformando, porque sobre ela existe um elemento que é sempre em movimento: a água.

Comparação dos rios como as veias do corpo humano.O sangue se ramifica nas veias como a água nos rios.Foto retirada do video produzido pelo Museu Galileo de Florença.

Em diversos estudos do Codex Leicester, para entender a função da água no mundo, Leonardo compara a Terra ao corpo humano.  A água é para Terra, como o sangue é para o corpo humano. Da mesma forma que a água viaja pela Terra, o sangue viaja pelo corpo humano. As veias do corpo humano são comparadas aos rios e o mar é comparado ao sangue localizado no coração, as montanhas são os nossos ossos e as colinas a massa muscular. Poético isso, não é?

O Codex Leicester não é um texto teórico, mas de aplicação prática, pois para Florença era fundamental principalmente por causa do rio Arno. As cheias do rio Arno representava um grande perigo para a cidade. O grande problema era saber como controlar um evento natural difícil, como as cheias do rio Arno. Não é facil controlar a água de um rio, pois você pode desviá-la, mas ela vai para outra parte. É preciso uma ciência para controlar um rio, e é esse o objetivo de Leonardo no Codex Leicester: a ciência das águas.

Nas páginas do Codex Leicester é possível ver diversos desenhos realistas que representam a água em movimento, ou seja, diversas formas que a água faz quando encontra um obstáculo. Isso é um grande problema, pois dependendo da forma do obstáculo (vertical, horizontal, cubico, redondo, etc), a água dá origem a uma forma diferente.

Por que era importante compreender a forma da água? Era importante para a construção, por exemplo de uma ponte. Os pilares deveriam ter uma forma tal para resistirem a água. Compreender como água se move era importante para não impactar de forma perigosa a estrutura arquitetônica.

Além do Codex, a exposição exibirá também outros desenhos e escritos de Leonardo, como o famoso “Código sobre o voo dos pássaros“, excepcionalmente emprestado pela Biblioteca Real de Turim, compilado nos mesmos meses do Codex Leicester. Serão exibidos também quatro folhas espetaculares do Código Atlântico, emprestados pela Biblioteca Ambrosiana de Milão, que ilustram os estudos Vinciano sobre a Lua e ainda duas preciosas folhas do Código Arundel da British Library.

Graças a uma inovadora ajuda multimídia feita pela especialmente pela Microsoft, o Codescope, o visitante poderá navegar por cada folhas em telas digitais, acessar a transcrição de textos e múltiplas informações sobre os temas abordados. Estará também a disposição do visitante uma vasta gama de filmes digitais feitos pelo Museo Galileo, que, além de estarem em exposição, estarão disponíveis nos sites da Uffizi e Museo Galileo.

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Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

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