Hoje vamos conhecer um pouco da história de Giovanni de’Medici, futuro Papa Leão X.

Giovanni de’Medici nasceu em Florença no dia 11 de dezembro de 1475, era o segundo filho de Lorenzo o Magnífico e Clarice Orsini. Quando era ainda muito pequeno, foi destinado, por vontade do seu pai, a carreira eclesiástica. Teve os melhores tutores da corte do Magnífico e diferente do seu irmão Piero, amava a literatura e a arte em todas as suas formas.

Aos sete anos, Giovanni teve a tonsura e seu pai, que contava muito com ele para o futuro da família, insistiu muito com o papa em nomeá-lo cardeal. Aos 13 anos, Giovanni foi nomeado, em segredo, cardeal.

Giovanni Cardeal

Em 1489, Lorenzo o Magnífico tinha conseguido convencer o Papa Inocêncio VIII a nomear cardeal o seu filho Giovanni, de apenas 13 anos de idade. Mesmo durante aquele período de frouxidão moral e corrupção, tal circunstância era sem precedentes, ao ponto que o pontífice fez com que o Magnifico prometesse de não tornar a nomeação pública antes da conclusão do décimo sexto ano de idade de Giovanni.

Três anos cheios de ansiedade se seguiram para Lorenzo: o papa estava velho e doente e se ele morresse antes do tempo, o seu sucessor certamente teria cancelado essa nomeação tão vergonhosa. Mas, na realidade, logo ficou claro que era Lorenzo quem estava à beira da morte.

A Carta de Lorenzo o Magnífico

Lorenzo o Magnífico, Uffizi

Na primavera de 1492 Giovanni tinha dezesseis anos e seu pai, consumido pela doença acompanhava de longe a investidura e os festejamentos em homenagem ao novo cardeal. Logo depois, Giovanni foi a Roma. Em seu leito de morte, Lorenzo escreveu uma longa carta para o filho, informando-o da importância da sua posição – “foi a maior conquista da família” – e lembrando-lhe que “não será difícil para você, ajudar a nossa cidade e a nossa família”.

Além disso, Lorenzo aconselhou o filho a não perder as “graças” do pontífice, mas sem parecer muito intrusivo. Lorenzo conhecia bem o caráter de Giovanni: tendo crescido no círculo intelectual do Palazzo Medici, ele havia desenvolvido um gosto prematuro pelos prazeres da vida: literatura, pinturas, boa comida e excelentes vinhos…

Naquela última carta, Lorenzo fez também um pedido, um pouco curioso, ao filho: «Uma regra sobre todas as outras, eu te imploro para observar com muita atenção: levante-se de manhã cedo ». Acho que o nosso cardeal, futuro papa, gostava de dormir até mais tarde!

O Exílio

Lorenzo deve ter previsto que o futuro da família estava nas mãos do brilhante e dorminhoco Giovanni, e não nas mãos do arrogante Piero, que o sucederia no governo de Florença. Embora ninguém, nem mesmo o Magnífico pudesse ter previsto que a situação teria piorado tão cedo.

Alguns meses após a morte de Lorenzo, o Magnífico, Rodrigo Borgia foi eleito papa, com o nome de Alexandre VI. O cardeal Giovanni comentou com estas palavras tal evento: «Nós estamos nas garras de um lobo».

A viagem pela Europa

Em seguida o rei da França invadiu a Itália com seu exército e o cardeal de Medici, retornou a Florença na tentativa de ajudar o irmão Piero, mas como já vimos, ambos foram exilados da cidade. Giovanni, tinha então dezoito anos e entendeu que não seria sábio voltar a Roma, assim ele embarcou em uma longa viagem pela Europa, juntamente com o seu primo Giulio, filho de Guiliano de’Medici que morreu na Conspiração dos Pazzi.

Era um luxo que ele podia pagar: como cardeal, ele exercia vários ofícios, incluindo o de abade de Monte Cassino, o que lhe garantia uma renda muito alta.

Eles viajaram por cerca de cinco anos. Se moviam incógnitos, como simples cidadãos, não como religiosos. Giulio, seu primo e braço direito, também abraçou a vida religiosa. A verdade, porém, é que não era apenas uma viagem de prazer: eles certamente usavam roupas eclesiásticas quando se apresentaram a Maximiliano I, imperador do Sacro Romano Império.

O imperador ficou tão impressionado com os dois jovens que lhes ofereceu uma carta de recomendação para serentregue ao seu filho Filipe, dos Países Baixos. O cardeal Medici e seu primo Giulio estavam estabelecendo contatos de alto nível que teriam sido muito úteis no futuro.

Quando o Papa Alessandro VI se virou contra Savonarola, o Cardeal Medici decidiu que era hora de retornar a Roma. Ele foi acolhido pelo Papa Borgia como o “inimigo do inimigo” – então era seu amigo. De Roma, Giovanni fez tudo o possível, sem sucesso, para ajudar o irmão Piero a reconquistar Florença.

O primeiro conclave

Quando Piero morreu, em 1503, Giovanni permaneceu à frente dos Medici, e continuou a manter laços com os simpatizantes florentinos. Nesse mesmo ano o pontífice também faleceu e o cardeal Medici participou do conclave para a eleição de seu sucessor, Pio III. Assim ele pôde averiguar com os próprios olhos a corrupção que governara aquele conselho.

O Papa Júlio II

Três meses depois, os cardeais se reuniram novamente para um novo conclave. Dessa vez Giovanni tinha mais experiência e apoiou o cardeal Della Rovere, que foi eleito papa com o nome de Júlio II. Devagar Giovanni conseguiu conquistar para si e para sua família os favores e a simpatia do novo Papa. Júlio II, poderoso mas já idoso, foi para o cardeal Medici uma espécie de protetor.

Júlio II, era um papa guerreiro, com elmo e couraça, ele se colocava a frente da sua tropa para conquistar mais territórios. Podemos dizer que o Cardeal Giovanni assumiu a chefia militar do exército de Júlio II.

A reconquista de Florença

Assim, o cardeal Medici, conseguiu convencer o Papa, que a volta dos Medici no governo de Florença, seria de grande proveito para o Pontifice. Dessa forma, em 1512, as tropas da Liga Santa juntamente com Giovanni de’Medici marcharam em direção a Florença.

Em Florença, o governo republicano presidido por Pier Soderini, decidiu resistir, organizando, a pedido de Nicolau Maquiavel, secretário da República, a chamada “milícia urbana”. Segundo Maquiavel, uma República bem fundamentada necessita de um exército formado por cidadões-soldados e não por mercenários, os quais não pensam duas vezes antes de mudar de time, caso o “soldo” não seja pago, ou ainda se alguém pagar melhor. A milícia urbana em vez, pelo menos na teoria, tem o real interesse em defender a pátria.

Enquanto isso, as tropas espanholas da Liga Santa mostravam a sua força e ferocidade. Em poucos dias conquistaram Prato, nos arredores de Florença, a ferro e a fogo. A cidade foi devastada, saqueada e muitas pessoas morreram. O chamado Saque de Prato, foi feito na verdade para aterrorizar a República Florentina. Um embaixador foi até Florença para convidar a rendição de Pier Soderini, que fugiu juntamente com outros republicanos. No mês seguinte, os Medici retornaram a Florença, após 18 longos anos de exílio.

Giovanni retornou ao Palácio Medici, juntamente com Guiliano, seu irmão, seu primo Guilio, Alfonsina, viúva de Piero e o filho Lorenzo. A outra filha de Piero, Clarice, casou-se com com Filippo Strozzi. O Cardeal não permaneceu muito em Florença. Ele preferiu retornar à Roma juntamente com o primo Guilio e confiou o governo da família nas mãos do seu irmão mais novo, Guiliano.

Giovanni eleito papa

Leão X – Baccio Bandinelli – Palazzo Vecchio – Florença.

Era importante retornar a Roma, pois a morte do papa Guilio II parecia eminente. Em 11 de março de 1513, com apenas 36 anos de idade, Giovanni de’Medici foi eleito papa com o nome de Leão X. A eleição de Giovanni conferiu aos Medici um grande prestígio, mas também trouxe grandes mudanças na família.

Guiliano, o irmão mais novo do Papa que estava a frente da família em Florença foi chamado a Roma para assumir o cargo de Gonfaloneiro do exército papal. Assim, a função de chefe da família passou para o neto do Magnífico, que também se chamava Lorenzo, filho de Piero e Alfonsina e futuro pai de Catarina de’Medici.

O Papado de Leão X

Durante as suas viagens, Giovanni aprendeu muito sobre os homens e negócios mas não perdeu o seu caráter afável, amante da tranquilidade, além do seu amor pela arte e pela literatura. As suas principais características era o bom senso, gentileza, bom humor, amor pela paz e ódio pela guerra. Porém, o seu papado ficará manchado por ele ter dedicado grande parte do seu tempo e dinheiro a caça e a diversões pessoais.

Assim que foi eleito Papa, Giovanni iniciou um grande processo de proteção da literatura e da arte. Ele convocou os homens mais sábios para fundar em Roma uma universidade dedicada ao estudo do grego e do latim.

Leão X com os cardeais Gulio (a esquerda) e Luigi Rossi (a direita) – Rafael Sanzio, Palazzo Pitti – Florença

Ele pensou também na sua família e elegeu seus primos Guilio de’Medi e Luigi Rossi cardeais, além dos sobrinhos (filhos de três irmãs) Innocenzo Cybo,Giovanni Salviati e Niccolò Rodolfi. Com cinco cardeais na família, era muito provável que um deles chegasse um dia a sentar no trono de Pedro.

Em 1518, Leão X estabeleceu com Francisco I da França, o matrimônio do seu sobrinho Lorenzo, de’Medici com Maddalena de la Tour d’Auvergne parente do rei.

Lorenzo, morreu no ano seguinte, e deixou um grande problema para Leão X resolver: reparar os danos causados pelo sobrinho durante o breve período que ele esteve a frente da família e o pior, o problema da sucessão. Neste momento, o único herdeiro legítimo da família era a recém-nascida Catarina, filha de Lorenzo com Madalena de la Tour d’Auvergne, que morreu ao dar a luz. Giuliano, irmão do Papa, também teve um filho, Ippolito, mas era ilegítimo, ou seja, fora do matrimônio.

Assim, Leão X, mandou seu primo, o Cardeal Giulio de’Medici para Florença, para administrar os interesses da família. Giulio permaneceu em Florença por alguns meses, e ao retornar para Roma, deixou o Cardeal Passerini, como representante do papa em Florença.

O Cardeal Guilio de’Medici

Para satisfazer o seu caráter pacífico e dedicar o seu tempo a literatura e a arte, além das festas luxuosas que tanto gostava, Leão X abandonou a direção política do seu papado, deixando todas as decisões nas mãos, do enérgico e esperto Cardeal Guilio de’Medici, seu primo.

As consequências não foram boas, pois o caráter de Giulio era muito diferente do papa. Mesmo assim, o Papa teve que assumir a responsabilidade de tudo o que foi feito em seu nome.

Para Leão X, os negócios políticos e eclesiásticos eram chatos demais e o melhor modo de liberar-se de tais responsabilidades era deixar seu primo a frente das decisões. Giovanni não era como Cosimo o Velho e o seu pai Lorenzo o Magnifico, que conseguia conciliar o amor pela arte e pela cultura com os negócios políticos.

O seu amor pela arte não tinha limites e ele promoveu e protegeu muitos artistas, entre eles Rafael Sanzio. Giovanni as vezes se afastava de Roma por meses, para ir caçar ou pescar no lago de Bolsena. Quando estava em Roma, organizava diversos banquetes que lembravam as festas dos imperadores romanos.

Ocupado nas diversas festas, bailes, teatros, caças, delícias literárias e artísticas, Leão X conduziu uma vida cômoda e jovial, ocupando-se o menos possível de política, deixando todo o peso do papado nas mãos do cardeal Guilio de’Medici.

A Reforma Protestante

Um temporal estava iniciando no outro lado dos Alpes e em pouco tempo Leão X seria obrigado a pensar em coisas mais sérias do que a literatura e a arte.

O legato da construção da nova Basílica de São Pedro deixado pelo Papa Guilio II estava esvaziando os cofres do papa e era necessário recorrer a meios extraordinários para encontrar novos fundos. Assim, Leão X publicou uma bula em 1517, declarando que o Papa havia o poder de conceder indulgências para o bem das almas daqueles que já morreram.

A bula foi seguida de uma escandalosa deliberação de venda das indulgências, dando início assim ao trafego de coisas sagradas, o que aumentou a indignação da Europa setentrional.

Após a publicação desta bula, Lutero publicou na porta principal da igreja de Wittenberg as suas célebres “Teses”, contra a venda de tais indulgências.

O sistema de indulgências não era uma invenção de Leão X, existia há pelo menos 300 anos, o papa só havia feito a publicação novamente. O problema é que na época de Leão X, os homens estavam menos dispostos a suportarem esse novo velho sistema.

E assim começou um conflito que durou por diversas gerações: dividiu nações e também famílias, com efeitos que sentimos ainda hoje.

A morte de Leão X

Monumento fúnebre Papa Leão X – Roma

No final do mês de novembro de 1521, após um dia de caça, Leão começou a sentir-se mal e com muita febre. Sua saúde foi sempre piorando até que no dia 01 de dezembro, ele faleceu. Como sempre, pensaram que a sua morte fosse devida a um veneno, mas a autópsia feita no cadáver não confirmou tal suspeita.

Leão morreu com a idade de 45 anos e foi inicialmente sepultado no Vaticano. As obras que ainda estavam em andamento, impossibilitaram que Leão e os outros três papas que vieram depois dele, fossem sepultados na Basílica de São Pedro.

Após a morte do outro papa Medici, Clemente VII, decidiram que os dois papas fossem sepultados na igreja de Santa Maria sopra Minerva em Roma.


Cristiane de Oliveira

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Florença ha 12 anos. Apaixonada por arte, historia e bons vinhos. Guia de turismo e sommelier na Toscana.

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